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“The Cloud of Unknowing”: Sepultura lança EP de despedida

Sepultura. Foto: Stephanie Veronezzi
À medida que se aproxima o encerramento de uma trajetória que ultrapassa quatro décadas, o Sepultura apresentou seu trabalho final, o EP “The Cloud of Unknowing”, lançado nas plataformas digitais no dia 24 de abril, via ONErpm. Com mais de 40 anos de atividade, 14 discos de ouro e apresentações realizadas em mais de 80 países, o grupo consolidou sua presença no cenário internacional como um dos principais nomes do metal originado no Brasil.
Enquanto ainda percorre diferentes países com a turnê de despedida “Celebrating Life Through Death”, surgiu a questão sobre como registrar o encerramento de uma trajetória extensa. A resposta veio por meio da decisão de registrar um último momento criativo e preservá-lo como parte do legado da banda.
Para isso, o grupo escolheu o Criteria Studios, em Miami, espaço conhecido por abrigar gravações relevantes de diversos gêneros musicais. A produção ficou a cargo de Stanley Soares, colaborador de longa data, e o EP foi desenvolvido ao longo de dez dias de trabalho em estúdio.
“Nós arranjamos tudo diretamente no estúdio”, lembra Andreas, guitarrista da banda. “Não havia pressão! Nenhuma data de lançamento, nenhum título de álbum, nenhum nome de música. Nós simplesmente compusemos e tocamos. Em uma faixa, nos inspiramos nas influências jazzísticas de Greyson, o que trouxe uma nova dimensão ao nosso som. Foi uma experiência incrível, e estou orgulhoso de que, em nosso último ano, possamos lançar algo tão espontâneo e honesto — e tocá-lo ao vivo em turnê também.”
O resultado desse processo foi “The Cloud of Unknowing”, trabalho que apresentou diferentes direções sonoras dentro do repertório da banda. “O nome faz referência a um termo usado em um movimento cristão que aconteceu pouco depois de 1390, e que questiona toda essa parafernalha de livros, imagens e locais sagrados usados para conexão espiritual, dizendo que isso é completamente desnecessário para ter uma conexão direta com a natureza ou com as sensações que criamos e desenvolvemos dentro de nós. É como se a gente estivesse lendo o menu para matar a fome”, explica Andreas.
Com quatro faixas, o EP funciona como um registro final que percorre diferentes elementos da trajetória do grupo. Da intensidade de “All Souls Rising”, que incorpora passagens orquestrais, até a abordagem mais contida de “Beyond the Dream”, marcada por vocais limpos, o trabalho articula diferentes aspectos do repertório construído ao longo dos anos.
O vocalista Derrick Green comentou os temas presentes em “All Souls Rising”: “A ideia central foi inspirada por um livro de Madison Smartt Bell sobre a rebelião de escravos no Haiti da década de 1780. Em um nível mais amplo, ela aborda o que está acontecendo na sociedade hoje — o quanto pode ser mudado quando nos unimos além de raça, religião e política. Trata-se também das mudanças que podemos fazer dentro de nós mesmos.”
A faixa “The Place” também aborda temas sociais. “Essa música trata de imigrantes que chegaram a um lugar em busca de refúgio e para começar uma nova vida. Uma vez assimilados por uma falsa sensação de segurança e por uma propaganda implacável, eles começaram a agir contra o que odeiam em si mesmos. A transição começa com a fuga do ódio a si mesmo e com o ataque às pessoas que acreditavam nas mesmas ideias. Sinto que a letra acompanha verdadeiramente as transições da música. Começando com decepção e chegando à raiva”, afirmou Derrick Green.
“Beyond the Dream”, segunda faixa do EP, apresentou uma estrutura de balada, pouco explorada anteriormente pela banda. “Era um desejo antigo da banda explorar esse formato, desde que o Derrick entrou trazendo sua capacidade vocal. A gente tinha tentado, mas nunca saiu do jeito que imaginávamos, sempre ia pra um lado mais pesado”, explica Andreas. O guitarrista também comentou a escolha pelo formato EP: “É muito comum dentro do thrash metal. Eu tenho vários EPs favoritos com baladas, como “Creeping Death”, onde o Metallica faz a versão da ‘Am I Evil?’; EP ‘Armed and Dangerous’ do Anthrax, que também introduziu uma nova formação da banda; o ‘Haunting the Chapel’ do Slayer, que tem a “Chemical Warfare”.”
A faixa contou com a participação de Tony Bellotto e Sérgio Britto, integrantes dos Titãs, músicos com histórico de colaboração dentro do cenário musical brasileiro. “Eles são da família, compositores espetaculares, escreveram baladas lindas na história dos Titãs. A gente se juntou e o processo foi maravilhoso. É uma honra ter os dois num projeto do Sepultura, de uma forma tão íntima nesse formato, com uma música que saiu maravilhosamente bem. A gente conseguiu realizar esse último desejo antes de acabar”, afirmou Andreas.
“The Cloud of Unknowing” se apresentou como um registro final do grupo, marcado por um processo criativo direto e sem mediações externas. O EP sintetiza elementos recorrentes na trajetória da banda, ao mesmo tempo em que registra um último momento de produção coletiva.
“The Cloud of Unknowing” já está disponível em todas as plataformas digitais via ONErpm.
