“Pluribus” questiona o preço da harmonia absoluta ao colocar a individualidade à prova
Por Alexey Dodsworth*
Um dos lemas dos EUA é a frase em latim “E pluribus unum” (de muitos, um), que dá a entender exatamente o que parece: uma unidade criada a partir da pluralidade. A série PLURIBUS, do mesmo criador de “Breaking Bad”, é simplesmente uma delícia. Ficção científica com ótimas pitadas de humor absurdo. Não tem ação vertiginosa, não tem grandes efeitos especiais, quase tudo se sustenta a partir de diálogos excelentes e de situações esdrúxulas.
Enredo, sem spoilers (é praticamente o que consta nas sinopses): cientistas recebem uma comunicação alienígena enviada de um mundo que dista 600 anos-luz da Terra. Decifram a comunicação: é o código genético de um vírus. E o que a humanidade – inteligentíssima – faz ao receber instruções de um desconhecido? Cria o vírus, claro!
O princípio da coisa é a burrice suprema que existe em pessoas muito inteligentes: se dá pra fazer, então vamos fazer
Resultado: quase todos os indivíduos do planeta Terra se tornam uma só entidade. Os corpos continuam separados, só as mentes se fundem em um só ente. A entidade é altamente benévola, gentil, ecologicamente correta, guarda o conhecimento e a lembrança de todos os humanos existentes, mas não preserva seus traços de personalidade.
A Terra se converte em um paraíso.
QUASE todos se tornam um, exceto algumas poucas pessoas imunes ao vírus ao redor do mundo. Uma delas é a escritora de romances de fantasia brega Carol Sturka, que vive com sua esposa Helen. Carol é uma figura singular: seu principal traço de personalidade é um mau humor delicioso que a faz estar sempre descontente.
Carol subitamente se descobre uma das únicas humanas que não foi assimilada pela entidade Pluribus. A série é sobre sua tentativa de compreender o que houve, como lidar com a entidade (que insiste em ser gentil com ela).
Você ri, você chora, você fica pasmo. A atriz que faz Carol é Rhea Seehorn, que oferece um espetáculo de interpretação a cada episódio.
O que você preferiria? Uma harmonia incrível em um mundo sem antagonismos e sem personalidade ou a preservação das características distintivas em um mundo em conflito?
Pluribus passa na Apple TV e vale cada real pago.
*Escritor, Doutor em Filosofia pela USP e Universidade Ca Fóscari (Veneza, Itália)
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