Ateus usam preconceitos do cristianismo quando falam de budismo

 Ateus usam preconceitos do cristianismo quando falam de budismo

Image by Arek Socha from Pixabay

Budismo é religião ou filosofia? Entenda por que críticas ateias usam critérios cristãos e distorcem o conceito de religião

Religião e ciência podem caminhar em harmonia? O que é espiritualidade? Ela depende da crença em Deus ou deuses? Crenças que não contam com a presença de um Deus criador (como o budismo) podem ser classificadas como religião? Por que muitos ateus e religiosos interpretam mitos como se fossem “mentiras” ou “verdades históricas”?

Essas perguntas apontam para um problema recorrente no debate público: a tentativa de enquadrar tradições religiosas complexas em categorias simplistas. Para o professor Derley Menezes Alves, mestre em filosofia e doutor em ciência das religiões, esse tipo de abordagem parte de um equívoco básico. “Não há uma definição geral de religião que dê conta de toda a diversidade do fenômeno religioso”, afirma.

As reflexões de Derley foram apresentadas em entrevista ao músico e jornalista AD Luna, na edição #4 do InterD, em junho de 2021. O programa é veiculado pela Universitária FM do Recife, emissora da UFPE, e também está disponível nas principais plataformas de streaming. A entrevista completa pode ser ouvida no player ao final da matéria.

O que é religião? Por que não existe uma definição única

A dificuldade começa na própria definição de religião. No Ocidente, o conceito foi historicamente moldado pelo cristianismo e pelo contato com outras tradições monoteístas, como judaísmo e islamismo. Nesse contexto, religião costuma ser associada a crença em um deus criador, à existência de uma alma e à promessa de salvação após a morte.

Esse modelo, no entanto, não é universal. Quando aplicado a tradições como o budismo, ele se mostra insuficiente. Ao não encontrar nesses sistemas os elementos esperados, parte do debate conclui, de forma precipitada, que não se trata de religião.

Historicamente, essa limitação levou estudiosos europeus a classificarem religiões asiáticas como superstição ou como formas inferiores de crença. Esse cenário começou a mudar a partir do século XIX, quando o contato mais sistemático com textos e práticas do Oriente levou à revisão dessas categorias e ao desenvolvimento da ciência das religiões como campo acadêmico.

Mesmo dentro da tradição ocidental, não há consenso sobre o conceito. Derley menciona duas interpretações clássicas: “religare”, entendida como reconexão com o divino, e “relegare”, relacionada à observância ritual. A coexistência dessas definições já indica que o termo está longe de ser estável.

No campo acadêmico, o debate se organiza, em geral, entre duas abordagens. A perspectiva substancialista busca identificar um elemento comum a todas as religiões, enquanto a funcionalista procura entender o que elas fazem — suas funções sociais, simbólicas e culturais. “Temos um termo usado para identificar vários fenômenos muito diferentes entre si”, resume o pesquisador.

Budismo é religião ou filosofia? Onde está o erro no debate

É nesse cenário que o budismo costuma ser mal interpretado. Por não apresentar um deus criador ou uma estrutura dogmática semelhante à das religiões monoteístas, ele é frequentemente descrito por ateus como uma filosofia ou como um sistema mais próximo da ciência.

Para Derley, esse raciocínio reproduz um padrão histórico. “Se você adota um formato pré-determinado de religião […] você está seguindo o mesmo modelo que o cristianismo seguiu durante séculos”.

A crítica aponta para um deslocamento: critérios derivados do cristianismo são utilizados como medida universal. Tudo o que não se encaixa nesse modelo é reinterpretado ou excluído.

A consequência é dupla. De um lado, o budismo é retirado do campo religioso. De outro, passa a ser valorizado justamente por isso, como se fosse uma alternativa mais racional ou mais legítima.

“Pode ser que a pessoa queira valorizar mais o budismo, dizendo assim, ‘não é uma religião, logo é melhor’, o que eu acho também muito problemático”, afirma.

Apropriação seletiva: meditação, espiritualidade e recorte do budismo

Essa leitura também se conecta a um fenômeno mais amplo: a apropriação seletiva de elementos religiosos. Práticas como a meditação, associadas ao budismo, são frequentemente destacadas por seus benefícios psicológicos e incorporadas a discursos de saúde mental e bem-estar.

Nesse processo, aspectos centrais da tradição são deixados de lado. Doutrinas, comunidades, rituais e objetivos religiosos desaparecem, enquanto técnicas são isoladas e reinterpretadas.

O resultado é uma versão fragmentada do budismo, frequentemente enquadrada como “espiritualidade” — um termo mais amplo, que pode incluir experiências individuais, práticas de autocuidado e referências variadas, sem necessariamente se vincular a uma religião institucional.

Ateísmo, estereótipos e confusão de categorias

A crítica de Derley não se limita ao caso do budismo. Ele aponta que parte do ateísmo contemporâneo opera com imagens simplificadas das religiões. “O ateísmo ingênuo […] faz uma crítica a estereótipos e não à própria religião”, afirma.

Esse tipo de abordagem costuma ignorar a diferença entre formas de discurso. A ciência se orienta pela explicação da natureza, com base em hipóteses e experimentação. Já as religiões frequentemente operam no campo simbólico, produzindo sentido e orientação existencial.

Quando esses registros são tratados como equivalentes, surgem interpretações distorcidas. No caso do budismo, isso se traduz tanto na tentativa de transformá-lo em filosofia racional quanto na redução de suas práticas a técnicas utilitárias.

Para além de modelos únicos

A ampliação do conceito de religião, impulsionada pelo contato com tradições não ocidentais, mostrou que não há um único modelo capaz de abarcar toda a diversidade religiosa.

No caso do budismo, insistir em categorias restritas produz distorções recorrentes: ora ele é tratado como “não religião”, ora é apropriado como confirmação de expectativas externas.

“Não é uma questão de um estar certo e o outro estar errado”, afirma Derley.

A observação aponta para um desafio central: compreender o fenômeno religioso exige reconhecer sua complexidade, evitando reduções e projeções que, em vez de esclarecer, obscurecem o objeto de análise.

Nietzsche, budismo e comparação filosófica

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No livro Nietzsche e o Budismo: entre a imanência e a transcendência, Derley investiga as fontes que Friedrich Nietzsche efetivamente leu sobre o budismo, buscando delimitar o contato real do filósofo com essa tradição.

A partir desse levantamento, a obra propõe uma comparação entre o budismo conhecido por Nietzsche e sua filosofia, tendo como eixo os conceitos de imanência e transcendência. O objetivo é evitar leituras projetivas e estabelecer uma análise baseada em referências históricas e conceituais.

O livro se insere em um campo de estudos que busca compreender as relações entre filosofia e religião para além das tradições monoteístas, ampliando o horizonte de análise.

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