Para Lea Shanati, arquitetura começa muito antes da estética

 Para Lea Shanati, arquitetura começa muito antes da estética
Com projetos premiados em Londres e Nova York, a fundadora do Studio Shanati inicia sua aproximação com o Brasil apresentando uma filosofia de design que coloca comportamento humano, memória e funcionalidade no centro do projeto
Casas nunca desempenharam tantos papéis quanto hoje. São, ao mesmo tempo, refúgio, escritório, espaço de convivência, lugar de descanso e cenário para encontros. Para a designer britânica Lea Shanati, essa transformação exige uma nova maneira de pensar a arquitetura de interiores.

Antes de escolher materiais, definir acabamentos ou selecionar peças de mobiliário, ela procura compreender hábitos, rotinas, afetos e a forma como as pessoas ocupam seus espaços. Perguntas simples orientam o início de cada projeto: onde alguém deixa as chaves ao chegar em casa? Como recebe amigos? Em que momento encontra silêncio? Que objetos carregam memórias importantes? Como a luz acompanha a rotina ao longo do dia?

É dessa observação do comportamento humano que nasce o trabalho do Studio Shanati, escritório londrino especializado em projetos residenciais, comerciais e de design de produto. Com mais de duas décadas de atuação, Lea construiu uma trajetória que reúne experiência em construção civil, mercado imobiliário e formação em gestão, comunicação e design. Ao longo desse percurso, consolidou uma prática que entende os interiores como uma linguagem capaz de traduzir identidades, despertar emoções e transformar a experiência cotidiana.

“Quero que meus clientes reconheçam a si mesmos dentro de suas casas, e não uma imagem idealizada criada para revistas ou Pinterest”.

Essa filosofia se manifesta em diferentes escalas. No Family Penthouse, em Londres, finalista do SBID International Design Awards, o conceito de organic modernism organiza concreto, madeira, mármore e formas orgânicas em torno de um objetivo pouco comum: criar uma arquitetura capaz de favorecer convivência, acolhimento e bem-estar. Já o Hybrid Design Studio & Art Gallery, vencedor do New York Architectural Design Awards, dissolve as fronteiras entre morar, trabalhar e criar, refletindo as transformações da vida contemporânea. A mesma lógica orienta a coleção Espresso Ceremony, premiada internacionalmente por transformar o ritual cotidiano do café em uma experiência sensorial construída a partir da ergonomia, da presença e da intenção.

Embora seus projetos sejam frequentemente associados ao universo do alto padrão, Lea prefere ampliar a discussão sobre o significado do luxo na contemporaneidade. Para ela, luxo deixou de estar ligado ao excesso para se aproximar de algo muito mais essencial: tempo, pertencimento e qualidade de vida.

Mais do que reunir peças de valor, um espaço precisa acompanhar quem o habita. Deve favorecer encontros, acolher diferentes momentos da rotina e permitir que arquitetura e funcionalidade caminhem juntas. Nesse processo, a estética permanece importante, mas deixa de ser ponto de partida para tornar-se consequência de um projeto pensado a partir das pessoas.

Essa visão também explica sua aproximação com o Brasil. Admiradora da produção cultural brasileira, da arquitetura moderna e da maneira como o país integra natureza, arte e vida cotidiana, Lea identifica afinidades entre sua forma de projetar e uma tradição que entende os espaços como lugares de convivência, expressão e identidade. O interesse pelo mercado brasileiro integra o movimento de expansão internacional do Studio Shanati e representa, segundo a designer, a oportunidade de estabelecer um diálogo com um público que compartilha uma compreensão particularmente sensível sobre a relação entre pessoas e espaços.

Mais do que apresentar um portfólio premiado, Lea Shanati pretende estabelecer um diálogo com arquitetos, designers e profissionais criativos brasileiros sobre um tema que considera cada vez mais relevante: o papel dos espaços na forma como vivemos.

Em um momento em que casas acumulam múltiplas funções e as fronteiras entre morar, trabalhar, criar e descansar se tornam cada vez mais fluidas, ela defende que projetar interiores deixou de ser apenas um exercício de composição estética. Tornou-se, sobretudo, um exercício de compreensão humana.

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