“Pecados Terrestres”: pensar em um mundo novo é nosso grande desafio

Pensar o fim do mundo é a parte fácil. Pensar em um mundo novo é nosso grande desafio e nosso grande primeiro passo
Por Derley Menezes Alves*
Contém leves spoilers do livro
Dando prosseguimento ao ciclo de resenhas da coleção Dragão Mecânico da Editora Draco, falarei hoje de Pecados Terrestres de Gerson Lodi-Ribeiro. Este é um livro com um clima pesado de fim de festa, ou melhor, fim de vida ou mesmo fim de mundo. Não de uma vida individual mas sim da vida humana na Terra. Essa Terra virou um enterro. Ou um cemitério. O autor nos coloca num futuro não tão distante diante de um cenário de pandemias, secas e falência do modo de vida ao qual estamos acostumados, baseado na exploração irresponsável e maldosa do mundo e das pessoas.
O ponto fora da curva neste cenário são as estruturas espaciais construídas por cientistas e, aparentemente, pessoas ricas e que não foram burras. Ao longo de quase todo o livro, eu via esta outra humanidade com desconfiança, parecia o delírio dos nossos bilionários tornado realidade. Ao longo da trama vai ficando claro que a estirpe humana espacial originou-se como reação ao negacionismo científico e às consequências da irresponsabilidade humana. Ao longo do livro vamos percebendo que o apocalipse já é uma realidade consolidada, com cidades parcialmente alagadas, aprofundamento do abismo entre ricos e pobres e esperança reduzida e cada dia mais inacessível.
O núcleo da trama é a família Mendonça: Ricardo, Ana Carolina e o mais novo, Carlinhos e o casal. A parte principal da trama vai girar em torno dos filhos, especialmente Ricardo, o narrador da trama. Os colegas de escola também são importantes. Não se enganem, são poucas pessoas e todas muito endinheiradas. Há toda uma narração do mundo comum dos personagens que deixa claro o privilégio dessas pessoas. Ao mesmo tempo, não são os ricos típicos de novela das oito. São pessoas com alguma sensibilidade social. Mas, extrapolando o cenário atual, é inevitável que os sobreviventes do apocalipse climático sejam pessoas sócio-economicamente privilegiadas. Pelo menos dá pra gostar dessas crianças.
Os espaciais possuem tecnologias fantásticas e estes ricos da Terra acabam pondo as mãos em alguma coisa. Tratamento genético para os filhos nascerem mais inteligentes, uma consciência artificial como professora das crianças, frente ao colapso até mesmo das escolas. Tudo para que seus filhos possam se mudar para os ambientes orbitais, caso a coisa fique feia demais na Terra.
Os humanos residentes no espaço são um grupo bastante interessante. Percebemos que não se orientam pelos mesmos padrões morais dos terrestres, são mais livres, o que se reflete na aparência da Consciência Artificial, Artemísia: uma mulher super sensual usando o traje típico dos espaciais: uma roupa colada que exibe suas formas voluptuosas e ao mesmo tempo dentro do padrão para espaciais. Uma das amigas dos Mendonça é uma menina trans, Gi, cuja família eventualmente vai para um orbital. Na Terra ela é aceita com reservas e certa dose de preconceito, mas no epaço não há mais esse tipo de coisa. As crianças não têm preconceitos com ela, não a tratam como menino desde que ela se entendeu como mulher.
A esperança da Terra termina numa mistura de seca, quebra de colheitas e uma nova pandemia. Os espaciais fecham a porta para a imigração, mesmo os Mendonça, com todo seu dinheiro, não podem mais escapar. Mas, os espaciais não são discípulos de Ayn Rand, eles buscam soluções dentro do possível, para a humanidade terrestre. Propõem a construção de naves que vão levar pessoas para outro planeta próximo com uma biosfera compatível. As pessoas selecionadas vão passar por um treinamento, entrar em animação suspensa e acordarão mais de um século depois nesse novo ambiente. A família Mendonça consegue 3 vagas. O futuro das crianças está garantido. Pelo menos uma possibilidade de futuro.
Finalmente a nova pandemia chega na casa dos Mendonça e as crianças precisam sair e começar o treinamento imediatamente. A partir daqui temos um salto na narrativa. Até aqui estamos vivendo em um mundo não muito diferente do nosso, toda tecnologia e costumes são compreensíveis e não tão diferentes de nós. Mas com o que vem depois do treinamento, estamos no futuro.
Saímos de uma apocalipse climático e de um mundo sem esperança para um futuro completamente utópico com tecnologias maravilhosas e uma humanidade que se espalhou pelo cosmos. Nosso narrador acorda de seu sono e começa a ser instruído sobre as novidades e sobre o que aconteceu com ele e com a Terra ao longo da animação suspensa. As pessoas podem migrar para corpos novos, não existem mais as relações parentais como era na Terra, o planeta natal da humanidade está se recuperando e há ainda humanos vivendo nele, porém, sem muito contato com a estirpe espacial.
Toda a narrativa antes disso parece um prefácio para uma série muito instigante de aventuras que Ricardo viverá com seus novos amigos, nesse mundo novo que emerge das cinzas do antigo. É sempre bom ter consciência que toda distopia, por mais terrível que seja, pode ser percebida como o prólogo de algo novo e melhor. Não para nós, claro, que somos os habitantes do velho mundo que está morrendo. Talvez não sejamos capazes de nos adaptar à nova realidade ou não vivamos o suficiente para ver o mundo novo que vai brotar do velho. É possível pensar também em um cenário onde nada disso aconteça, onde só há o fim. Ainda bem que esse não foi o caminho de Gerson Lodi-Ribeiro. Pensar o fim do mundo é a parte fácil. Pensar em um mundo novo é nosso grande desafio e nosso grande primeiro passo.
Originalmente publicado no blog Resenhas Scifi
* Derley Menezes Alves é mestre em filosofia, doutor em ciências das religiões, autor do livro “Nietzsche e o Budismo: entre a imanência e a transcendência”. Criador do perfil @resenhascifi no Instagram.
ACESSE TAMBÉM
“Fim das Religiões”: sci-fi brasileiro retrata androides como únicos sobreviventes da humanidade
“Júlia”: uma releitura feminista de “1984”, de George Orwell
“Paradoxo de Theséus”: leia resenha do livro brasileiro de ficção científica
“O Cair da Noite”: leia resenha de conto de Isaac Asimov
“Salmo para um robô peregrino”: confira resenha de livro de ficção científica
Política e ficção científica chinesa, com Fábio Fernandes
“Saros 136”: uma conversa com Alexey Dodsworth sobre a HQ brasileira de ficção científica
Ciência, religião, espiritualidade e budismo com Derley Menezes; ouça

