“As células de supercentenários parecem ser células mais jovens, mais resistentes ao envelhecimento. O declínio dessas células não acontece como o esperado” – João Paulo Guilherme, Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP
No entanto, ainda que existam pontos de convergência na amostra do estudo, os pesquisadores notam que o estilo de vida de cada um desses indivíduos diverge. “Têm centenários que são lúcidos, ativos e independentes. Diversos participantes moram sozinhos, alguns fazem atividade física”, exemplifica Mateus Vidigal. O inverso também se aplica: “tem a parcela que não tem hábitos saudáveis, são sedentários, consomem álcool, outros são tabagistas. Nem todos são lúcidos e ativos. Entretanto, passaram dos 100 anos. A gente atribui isso a um caráter genético”.
Mateus Vidigal conta que o interesse da equipe pela “genética do envelhecimento” data 2017, quando, ainda em seu projeto de pesquisa, o plano era comparar pessoas que chegaram ao centenário com qualidade de vida com as que também atingiram, mas com problemas de saúde. A covid-19 mudou os rumos da investigação, que buscou centenários infectados pela doença. “Por conta do contexto pandêmico, estudamos a resiliência por trás de uma doença tão grave nessa faixa etária. Em 2020, ninguém havia sido vacinado. Então, a gente estava estudando uma resiliência natural daquele indivíduo que passou dos 100 anos”, diz.
Entre os participantes da pesquisa, destaca-se a freira Inah Canabarro Lucas, ou apenas irmã Inah, reconhecida pelo LongeviQuest como a pessoa mais velha do mundo de 29 de dezembro de 2024 até sua morte, em 30 de abril de 2025, aos 116 anos. O estudo também inclui um caso familiar centenário de uma mulher de 109 anos, com sobrinhas de 100, 104 e 106 anos — o que as configura como uma das famílias mais longevas registradas na história do Brasil. A irmã do meio, Laura de Oliveira, começou a nadar depois dos 70 anos e é recordista sul-americana.
O pesquisador observa que, mesmo com os resultados da pesquisa sendo preliminares, dois padrões já se destacam: mulheres vivem mais do que homens e indivíduos de menor estatura aparentam ter maiores chances de viver mais, principalmente as mulheres.
Atualmente, o grupo está recrutando voluntários com cem anos ou mais que gostariam de fazer parte da pesquisa. Interessados podem entrar em contato pelo e-mail: dnalongevo@usp.br.
O artigo Insights from Brazilian supercentenarians está disponível on-line e pode ser acessado neste link.
Mais informações: mayazatz@usp.br, com Mayana Zatz; mateusvcastro@gmail.com, com Mateus Vidigal, e jplfguilherme@hotmail.com, com João Paulo Guilherme.
* Estagiária com orientação de Tabita Said