Sociedade

Minnesota: moradores brasileiros têm percepções heterogêneas sobre perseguição a imigrantes

Antes de fazer parte dos Estados Unidos, a região hoje conhecida como Minnesota era habitada por nativos norte-americanos de origem Dakota (os primeiros habitantes da região) e pelo povo Ojibwe, originário de áreas a noroeste dali

Por Pedro A. G. dos Santos, College of Saint Benedict & Saint John’s University

Depois de quase dois meses do começo da “Operation Metro Surge”, mais de 2.400 pessoas foram presas pelos agentes de imigração presentes no estado de Minnesota. Apesar da operação ter começado em novembro de 2025, não repercutiu internacionalmente até a chegada de dois mil agentes no dia 6 de janeiro, e a morte de Renee Good, no dia 8.

O conflito entre agentes de imigração e as partes da população contrárias aos métodos usados para prender e deportar imigrantes chegou a um estágio sem precedentes, ao ponto de Donald Trump ameaçar invocar o Insurrection Act, que dá ao presidente autoridade de mobilizar tropas do exército dentro do solo americano contra cidadãos americanos.

As operações dos agentes de imigração têm mudado a rotina em muitos lugares nas Twin Cities (a região metropolitana de Minneapolis e Saint Paul) e em outras cidades pelos estados.

Quem são os imigrantes que vivem em Minnesota e quais estão sendo mais afetados com o que está acontecendo? E os brasileiros no estado, como estão se sentindo? Na condição de brasileiro, imigrante, e professor de Ciência Política na College of Saint Benedict & Saint John’s University, em Minnesota, procurarei nas próximas linhas traçar uma visão histórica das condições de vida dos diferentes grupos étnicos que habitam o estado. E também mostrar as conclusões iniciais de uma pesquisa que conduzo com a população de brasileiros na região, de perfil ainda pouco conhecido e estimada entre duas e cinco mil pessoas.

Os imigrantes em Minnesota

Antes de fazer parte dos Estados Unidos, a região hoje conhecida como Minnesota era habitada por nativos norte-americanos de origem Dakota (os primeiros habitantes da região) e pelo povo Ojibwe, originário de áreas a noroeste dali. O estado de Minnesota foi oficialmente criado em 1858, e quatro anos depois a guerra entre os colonos europeus e os Dakota forçou a população indígena para fora do estado e para reservas indígenas, abrindo espaço para uma grande imigração europeia.

O fim do século 19 e começo do século 20 foram os anos de imigração escandinava e alemã, com mais de 60% dos imigrantes no estado vindo destas regiões. Até meados do século 20 a imigração para o estado era dominada por diversos grupos europeus, apesar da população latina ter presença desde 1920, quando trabalhadores rurais do México aumentaram sua presença na capital, Saint Paul.

Uma nova dinâmica se estabeleceu após a Guerra do Vietnã (1959-1975), quando um grande número de nativos do grupo étnico asiático Hmong veio para o Minnesota, num fenômeno que se estendeu nos anos 80, atraídos pelos serviços públicos mais robustos e pela ajuda generosa de organizações como Catholic Charities and Lutheran Social Services. Nos anos 90, os mesmos fatores de atração trouxeram outra população castigada pela guerra, os somalis, que fugiam dos conflitos em sua terra natal no Chifre da África.

Quem está sendo mais afetado pela Operação ‘Metro Surge’?

Em novembro de 2025, com o caso Vasquez Perdomo v. Noem, a Suprema Corte americana abriu uma brecha jurídica para que agentes de imigração pudessem considerar raça (neste caso, a cor e a etnia), tipo de emprego e o uso do espanhol na comunicação verbal como justificativas para abordar pessoas, legalizando a discriminação por perfil racial) em intervenções nas ruas e, nos últimos dias, até mesmo nas casas e locais de trabalho das pessoas.

Em Minnesota, está claro que a estratégia dos agentes de imigração segue esse padrão discriminatório. Existem vários casos de cidadãos americanos sendo apreendidos por agentes de imigração para só depois serem liberados, o que é uma clara violação dos direitos constitucionais.

Exemplos como os de Jose Roberto Ramirez (ele e sua tia levaram socos de agentes antes de poderem mostrar que eram cidadãos), Mubashir Khalif Hussen (um cidadão detido ilegalmente e liberado só depois de algumas horas) e Garrison Gibson (imigrante liberiano legalizado nos EUA, que teve a porta de sua casa arrombada, foi levado para um presídio no Texas, liberado por falta de provas e preso novamente um dia depois, ao comparecer voluntariamente a um escritório da imigração) mostram que existe um foco grande na população que “se parece” com imigrantes latinos ou africanos.

Isso também se mostra presente nas cidades fora da região metropolitana das Twin Cities. Em Saint Cloud, cidade de 60 mil habitantes onde eu moro, mais de 100 agentes entraram em conflito com a população no centro comercial somali da cidade, no último dia 12 de janeiro.

Vale lembrar: mais de 90% dos somalis vivendo em Minnesota são cidadãos americanos.

As outras cidades com forte presença de agentes de imigração são aquelas com um grande número de latinos (entre eles, muitos indocumentados) e pequenos bolsões de população de outros países, como Haiti e Sudão. A grande maioria destas cidades possuem fábricas de processamento de carne, com trabalhos historicamente realizados por grupos imigrantes de baixo poder socioeconômico, e que, em Minnesota, atraem latinos de vários países, como México, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Guatemala.

Como fica a população brasileira em Minnesota

Eu comecei a pesquisar a imigração de brasileiros para Minnesota no ano passado. Não existe nenhuma pesquisa acadêmica sobre brasileiros no estado e poucas pesquisas sobre brasileiros na região do Meio Oeste dos Estados Unidos. Minha pesquisa inicial indica um número entre 2.000 e 5.000 brasileiros no estado.

Esta última década viu um número maior de indocumentados chegando ao estado, mas ainda é difícil estimar o tamanho desta população. Sabe-se, porém, que ela é grande o suficiente para movimentar mercados exclusivos de produtos brasileiros, além de uma seção grande de produtos brasileiros num importante mercado latino da região, e duas igrejas com cultos em português.

Porém, diferentemente das populações latinas em geral e dos somalis, os brasileiros aqui não têm uma coesão geográfica. Eles estão espalhados, principalmente, pela região metropolitana das Twin Cities. Nas dez primeiras entrevistas que fiz (entre maio e outubro de 2025), cada brasileiro entrevistado morava em uma cidade diferente, com quatro deles dizendo que o número de brasileiros em suas cidades é mínimo. Uma exceção é a região de Burnsville, para onde um número significativo de brasileiros (muitos indocumentados) tem se mudado, morando em vizinhanças predominantemente latinas.

Essa dispersão geográfica, aliada à tensão que tenho observado entre os brasileiros documentados e indocumentados, significa que as experiências da “comunidade” brasileira são bem diferentes das dos demais latinos. Em um questionário que enviei via grupos de WhatsApp de brasileiros da região (com uma amostra de conveniência de 27 pessoas), quando perguntados sobre como as ações dos agentes de imigração mudaram as suas rotinas, 22% disseram que nada mudou, enquanto que 33% afirmaram que a vida mudou um pouco, e 44% afirmaram terem mudado completamente as suas rotinas por causa do ICE.

Nas respostas abertas, os comentários variaram desde “sou cidadão, então não mudou nada” (seis das sete pessoas que disseram que nada mudou indicaram ter cidadania ou green card) até frases como “não saio de casa, estou aterrorizada, minha filha não estuda, meu marido não trabalha, não vemos mais ninguém.” Esta veio de uma brasileira que, mesmo sendo cidadã americana, agora anda com o passaporte no bolso e que tem medo até de ir “levar a lata de lixo para fora, pôr gasolina no carro, ir à academia.” Outra pessoa relatou que não sai de casa há mais de um mês, e que tem “medo de ficar na varanda.”

Enquanto um brasileiro disse que “meu bairro é calmo, tem casas grandes e a maioria dos proprietários são 60+ de idade e republicanos, brancos”, outro disse: “Eles ficam rodeando o nosso prédio até mesmo nas madrugadas”. Outro, que mora a 370 quilômetros das Twin Cities, disse ter visto apenas “pequenas operações pontuais.”

A pesquisa ainda está em andamento, mas eu agradeço muito aos 27 brasileiros que completaram o questionário inicial, descrevendo o que eles estão vivendo nesse momento. Nada disso do que está acontecendo é normal, e as disparidades das experiências relatadas indicam que a discriminação por perfil racial é um forte fator de influência na geografia das ações dos agentes de imigração.

Pedro A. G. dos Santos, Professor de Ciência Política, College of Saint Benedict & Saint John’s University

Republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Read the original article.

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