Os responsáveis expressaram menor propensão a autorizar a participação de seus filhos em programas de vacinação escolar contra a Covid-19 (21,11% disseram que não os autorizariam).
Para os autores da pesquisa, isso pode ser reflexo do cenário político influenciando as atitudes em relação às vacinas no Brasil. Na época da pandemia, o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro minimizou os riscos da covid-19 para crianças, questionou a segurança das vacinas e se opôs à vacinação obrigatória, indo contra o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Mesmo após a aprovação das vacinas contra a covid-19 para crianças de 5 a 11 anos pela Anvisa, o governo organizou audiências públicas onde especialistas contrários à vacinação deram suas opiniões. Já o atual governo Lula, iniciado em 2022, e seu Ministério da Saúde, anunciaram, em 2025, que haverá nova iniciativa para implementar programas nacionais de vacinação em escolas. Não foram divulgados mais detalhes.
Além disso, como lembra a professora, na época da pandemia “houve um aviso de que os pais teriam que assinar um termo de responsabilidade, algo que não existe quando você leva seu filho para tomar outras vacinas”. Para ela, o anúncio, ainda que não tenha sido efetivado na prática, enviou uma mensagem de que a vacina da covid-19 não era igual às outras. “Então, temos evidências muito claras que, mais do que demorar a comprar as vacinas, o governo realmente adotou medidas para desestimular a vacinação infantil”, diz ela, ao ressaltar que Bolsonaro fez questão de falar publicamente que ele não autorizaria a própria filha a tomar a vacina.
Por outro lado, os achados sobre o alto nível de apoio à vacinação contra a dengue nas escolas, mesmo que esta vacina ainda não estivesse disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) no momento da pesquisa, sugerem que a aceitação de uma vacina em ambiente escolar não depende necessariamente de sua longa história de uso público. No caso da covid-19 – uma vacina mais recente – os pesquisadores apontam a contribuição negativa das campanhas de desinformação contra a vacinação, com apoio do próprio governo brasileiro.
Em relação aos grupos demográficos, os fatores que mais previram a oposição à vacinação escolar incluíram ser cuidador apenas de crianças com menos de seis anos e se autoidentificar como evangélico. Os motivos dessas tendências ainda precisam ser melhor estudados, mas já fica o alerta sobre a necessidade de que se desenvolvam estratégias para recuperar a confiança deste numeroso grupo populacional.