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A relação entre literatura e música

Por Thamara e Thainara Amorim *

Música e literatura, duas artes distintas, são poeticamente e historicamente correlatas. A letra musical, na qualidade de narrativa e a experiência literária enquanto, muitas vezes, sonora, podem ser ambas importantes aliadas: ainda que sejam, de fato, produções culturais únicas, como arte se complementam. Embora observadas hoje isoladamente, a distinção entre essas duas formas artísticas só se dá, então, com o declínio da oralidade literária, a partir da ascensão da imprensa, quando o ato de ler se torna solitário.

Antes disso, desde a Antiguidade Clássica, a junção entre música e literatura era percebida como natural. A propósito, na Grécia Antiga, era impensável fazer um sem o outro. Isso porque, texto e melodia se fundiam quase em uma arte só, já que o ato de ler sozinho não era comum naquela sociedade. Logo, durante a tradição helenística, a poesia lírica era acompanhada de instrumentos e cantada por um poeta solo ou por um coro.

“Safo e Alcaeus” (1881). Pintura de Lawrence Alma-Tadema

A experiência literária era, portanto, sonora. Mais tarde, já na Idade Média, a História passa por um período de oralidade mista. Mesmo diante da Imprensa de Gutemberg, se lê em voz alta, por diversas questões político-sociais. É nessa época que o trovador, sincronicamente poeta e músico, ganha espaço de vila em vila nos países europeus, entoando suas cantigas satíricas ou sacras.

Depois, já no Renascimento, surge a Ópera, talvez maior manifestação do vínculo entre o musical e o literário. É na ópera que o teatro, como literatura, se une plenamente a música, funcionando como narrativa ficcional contada e cantada. Entretanto, sob a derrocada da cultura oral, o relacionamento entre música e literatura, antes elementar, torna-se, atualmente, distante para o público. Claro, até mais um músico ganhar um prêmio de literatura.

O crítico literário estadunidense Cleanth Brooks, em seu livro The Well Wrought Urn, de 1947, compara a essência da poesia à composição musical. Tanto uma quanto a outra são conduzidas por métrica, harmonia e ritmo e, parte do encanto da poesia, se dá pela entoação, assim como na música. Esses paralelos entre as duas espécies artísticas são mesmo uma realidade ancestral, mas a discussão não é tão antiga assim.

Bob Dylan e o prêmio Nobel de Literatura

Com a entrega do prêmio Nobel de literatura de 2016, o debate se expandiu para fora da academia. Bob Dylan, músico e compositor, foi o grande premiado pela contribuição da sua obra à criação literária. A polêmica fez com que o próprio Dylan refletisse sobre o assunto e concluísse: “Mas música é diferente da literatura”. De acordo com o cantor, uma deve ser cantada e a outra, lida. Todavia, o caso é que as diversas manifestações musicais e literárias já foram capazes de provar que, respectivamente, literatura pode ser cantada e música pode ser lida.

Tal proximidade entre um gênero e outro deve justificar o fato de tantos músicos se tornarem escritores e vice-versa. Um bom exemplo dessa configuração é o do canadense Leonard Cohen (1934-2016), escritor de A Caixa de Especiarias da Terra (1961) e compositor do sucesso mundial Hallelujah, lançado originalmente em 1984 e imortalizado nas vozes de Jeff Buckley e Rufus Wainwright. Só após a fama nos circuitos literários, Cohen decidiu se tornar também músico e acabou por chamar atenção até de Bob Dylan.

Patti Smith, compositora e escritora estadunidense, é mais uma evidência da correlação entre o texto e o som. Dona de uma vasta obra literária, a “poetisa do punk” foi responsável, nos anos 1970, por juntar intelectualidade, feminismo e rock e, assim, se tornou uma das maiores influências da música e da literatura.

Além do hibridismo profissional de alguns escritores e cancionistas, a literatura e a música também se encontram quando uma serve de inspiração para a outra numa obra qualquer. Compor canções com base em livros não é uma ação que se extinguiu com a parceria entre o escritor alemão Wolfgang von Goethe (1749-1832) e o compositor francês Charles Gonoud (1818-1893), mas uma produção muito recorrente e prolífica até hoje.

Kate Bush e “O Morro dos Ventos Uivantes”

A compositora inglesa Kate Bush tem como sua obra mais conhecida a canção Wuthering Heights (“O Morro dos Ventos Uivantes”) lançada em 1978 e inspirada no único romance da escritora vitoriana Emily Brontë. Uns anos mais tarde, Bush se inspiraria em James Joyce para compor The Sensual World e seria comparada à uma personagem de Dickens pela imprensa britânica.

Assim, é possível notar que a música e o texto não apenas se assemelham em elementos estruturais, mas são complexamente relacionadas. Não há como determinar um contexto específico onde se subordinam uma à outra, mas as duas podem ser complementares em diversos sentidos.

Mesmo que não seja imprescindível atestar como e porquê se relacionam e em que intrinsecamente formam linguagem semelhante, seu namoro foi (e é) fértil. Assim, a discussão acerca da legitimidade de um músico literato ou de um de literato músico continua, pois o relacionamento entre as duas artes está longe do divórcio.

* Conteúdo produzido por alunas supervisionadas pelo professor Amílcar Bezerra. Visite a página do curso no Facebook.

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