“É fundamental trazer a ciência para a realidade dos alunos”, diz Anderson Gomes, presidente da APC

Anderson Gomes. Arquivo pessoal
Professor e cientista da UFPE, o presidência da Academia Pernambucana de Ciências, Anderson Gomes, reforça o compromisso de aproximar a ciência da sociedade e combater a desinformação
Por AD Luna
“Não vamos desistir do Brasil”. A frase, proferida pelo ex-governador de Pernambuco e então candidato Eduardo Campos, na eleição presidencial de 2014, foi repetida pelo e presidente da Academia Pernambucana de Ciências, Anderson Gomes. Cientista e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Gomes participou do programa InterD – ciência e cultura, veiculado em 3 de setembro, na Universitária FM do Recife e nas principais plataformas de streaming.
Na conversa, ele recordou que sua motivação inicial não foi a ciência, mas a docência, inspirada em sua mãe professora. “Eu não tive aquela história de olhar para a ciência desde cedo, porque não tive essa oportunidade. Descobri que havia uma carência de professores de física e segui por esse caminho”, conta.
InterD – Professor, como foi o seu despertar para a ciência?
Anderson Gomes – Eu não tive aquela história de olhar para a ciência desde cedo, porque não tive essa oportunidade. Minha motivação inicial foi ser professor, como minha mãe, que também era professora. Descobri que havia uma carência de professores de física e segui por esse caminho.
Durante a licenciatura em Física na UFPE, no terceiro ano, tive contato com o laboratório e com o mundo da ciência. Concluí a graduação já envolvido em iniciação científica. Depois cursei disciplinas do bacharelado para ampliar esse olhar, segui para o mestrado em Pernambuco e o doutorado no exterior.
Voltei ao Brasil no fim dos anos 1980, e desde então a ciência se tornou meu caminho. Naquela época, não havia tantas oportunidades de contato com ciência como existem hoje. Quem vinha de famílias mais ricas tinha acesso a filmes ou livros; no meu caso, dependia apenas da escola, que também não abordava a ciência de forma ampla. Hoje, apesar de ainda insuficiente, esse cenário melhorou bastante.
InterD – E atualmente, em que o senhor atua?
Anderson Gomes – Passei muitos anos apenas como professor e pesquisador na universidade. Depois me envolvi com gestão científica: fui diretor científico no Instituto Tecnológico de Pernambuco, secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação com Eduardo Campos e também secretário de Educação.
Um dos programas de que mais me orgulho é o Ganho Mundo, que leva estudantes do ensino médio para intercâmbio no exterior. Ele se tornou política de Estado e transformou a vida de muitos jovens.
Hoje continuo ligado à pós-graduação na UFPE e atuo no Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGE), uma organização vinculada ao MCTI. Lá trabalhamos com estudos de futuro e apoio às políticas nacionais. Coordenei, junto com o professor Sérgio Rezende, a 5ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia. O resultado foi a criação de um grupo que elabora a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação para os próximos 10 anos. Atualmente, minha vida se divide entre ciência, inovação e gestão científica.
Pessoas marcantes
InterD – Quem mais contribuiu para a sua formação?
Anderson Gomes:: A primeira foi minha mãe, Eunice Leonidas Gomes, professora de português. Teve dez filhos, fez questão de que todos estudassem e me ensinou persistência e resiliência.
No ginásio, um professor de desenho disse algo que me marcou: “Sempre ajude as pessoas a subirem a escada sem precisar empurrar ninguém para baixo.”
Na universidade, fui escolhido por um professor que não buscava apenas os melhores alunos: José Roberto Rios Leite. Ele me orientou na iniciação científica, sempre me apoiou e segue sendo referência.
Mais tarde, durante meu pós-doutorado, trabalhei com colegas no exterior. Uma delas foi a cientista francesa Anne L’Huillier. Colaboramos na criação de um laboratório e publicamos juntos. Décadas depois, em 2023, ela recebeu o Prêmio Nobel. Foi emocionante perceber que estive presente no início de sua trajetória.
Essas pessoas – minha mãe, José Roberto e Anne – são marcos fundamentais na minha caminhada.
Academia Pernambucana de Ciências
InterD – E sobre a Academia Pernambucana de Ciências, qual é o propósito?
Anderson Gomes – A Academia foi criada há mais de 80 anos. Nos últimos dez, passou por um processo de renovação, tornando-se mais rigorosa e ativa. Entrei há cerca de cinco anos e hoje sou presidente, reconduzido ao cargo recentemente.
Nosso objetivo é aproximar a ciência da sociedade pernambucana, combatendo desinformação e divulgando conhecimento de forma acessível. Mantemos, por exemplo, uma coluna semanal no Jornal da Cidade.
Também buscamos dialogar com governos e instituições, emitindo opiniões técnicas sobre temas relevantes. Queremos expandir as ações para escolas em todo o estado, capacitando professores e divulgando ciência. A Academia conta com cerca de 100 cientistas voluntários e planeja abrir espaço para membros institucionais, incluindo empresas interessadas em contribuir.
Nosso papel é mostrar que ciência está em tudo: do celular ao meio ambiente, da biodiversidade às tecnologias do cotidiano.
Ensino de ciência
InterD – O senhor comentou sobre ensino. Como vê o cenário atual?
Anderson Gomes – Hoje não adianta encher o quadro de fórmulas. É preciso mostrar como a ciência está no dia a dia. A pandemia nos lembrou disso: máscaras, tomografias, vacinas, tudo nasce de pesquisa científica iniciada décadas antes.
O problema é estrutural. Professores do ensino fundamental muitas vezes não recebem boa formação nem remuneração, reproduzindo conteúdos defasados. Isso gera um ciclo vicioso. Mas já vemos mudanças, com mais atenção à atualização docente e à integração da ciência no cotidiano escolar.
O fundamental é trazer a ciência para a realidade dos alunos. Só assim despertaremos interesse e formaremos cidadãos preparados.
Futuro da ciência no Brasil
InterD – Quais são seus desejos para o futuro da ciência no país?
Anderson Gomes:: Participo hoje do grupo que elabora a Estratégia Nacional de CT&I para os próximos dez anos. O sonho é que o que planejamos saia do papel e vire política de Estado, não apenas de governo.
Temos exemplos de sucesso, como o SUS e o Proálcool. Precisamos investir em educação, descentralizar universidades e institutos, espalhando oportunidades pelo Brasil inteiro, como fez a China.
O futuro depende de pacto social e visão de longo prazo. Educação, ciência e tecnologia são a base do desenvolvimento econômico e social.
Indicações e interdisciplinaridade
InterD – Que livros ou filmes o senhor recomenda para despertar o interesse em ciência?
Anderson Gomes – Mais do que indicar uma lista, sugiro que cada pessoa busque aquilo que desperta sua curiosidade. Hoje temos bibliotecas inteiras na palma da mão, no celular. É importante aprender a filtrar informações confiáveis.
Sempre defendo a interdisciplinaridade. Embora seja físico, há mais de 20 anos trabalho em odontologia, aplicando técnicas da física. A ciência precisa dialogar com diferentes áreas, inclusive com a cultura e as artes.
Um exemplo é o físico Neil deGrasse Tyson, que fala sobre alfabetização científica. Ele lembra que não queremos que todos sejam cientistas, mas que todos tenham uma visão crítica do mundo.
O essencial é estudar o básico – linguagem, matemática e ciências – para resolver problemas que ainda nem existem.
InterD – Gostaria de deixar uma mensagem final?
Anderson Gomes – Agradeço o convite e reforço uma frase de Eduardo Campos: “Não vamos desistir do Brasil.” Precisamos ser resilientes, persistir e acreditar que é possível construir um futuro melhor com base em ciência, educação e inovação.
OUÇA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA
ADQUIRA A VERSÃO EM EBOOK PDF DA ENTREVISTA (PARA DESKTOP). CLIQUE AQUI
ACESSE TAMBÉM
Renato Janine Ribeiro: “Não há progresso sem ciência”
InterD Minha História: conheça a cientista e cantora Isabel Lima

