Ciência e saúde

Do que estamos falando, quando falamos em inteligência?

Por Felipe Novaes*

Há pessoas que aprendem qualquer idioma em meses. Outras desmontam uma equação como quem resolve um quebra-cabeças infantil. Algumas ouvem uma sinfonia e a reproduzem, de ouvido. Outras captam ideias antes que a frase termine. E há também os que, por mais que se esforcem, jamais alcançam a mesma clareza.

Chame de talento, de dom, de capacidade — o nome pouco importa. O fato é que, em todos os tempos, a Humanidade reconheceu que as mentes não operam no mesmo ritmo. É um dado cotidiano demais para ignorar.

A psicologia tentou entender o porquê. Por trás das diferenças individuais, haveria um princípio comum? Algo que fizesse certas mentes aprenderem, resolverem e criarem com mais facilidade que outras?

Este texto parte dessa pergunta, simples mas que gera desconforto para alguns: o que existe de invisível, mas constante, na maneira como pensamos, raciocinamos e aprendemos? O que estamos, afinal, chamando de inteligência?

A caçada do século 20

No início do século 20, um professor de Cambridge começou a examinar algo que ninguém havia medido com rigor: as conexões entre diferentes tipos de habilidade mental. O nome dele era Charles Spearman, um engenheiro militar que havia se tornado psicólogo e acreditava que, sob o aparente caos das diferenças humanas, devia haver alguma ordem estatística.

Em 1904, ao aplicar testes de raciocínio, vocabulário e discriminação sensorial a crianças britânicas, Spearman percebeu que os resultados de cada um andavam juntos. Os alunos que iam bem em uma tarefa tendiam a ir bem nas demais. Essa regularidade, inesperada e insistente, parecia apontar para uma força comum que atravessava todas as formas de pensamento.

Spearman chamou essa força de fator g, de inteligência geral (general intelligence). Não era um órgão nem um talento isolado, mas um traço subjacente a todas as habilidades cognitivas. Quem tinha mais desse fator apresentava, em média, maior facilidade para aprender, raciocinar e resolver problemas — independentemente do conteúdo do teste.

O que o britânico Francis Galton havia intuído décadas antes — que as diferenças mentais podiam ser medidas —, Spearman demonstrou com precisão matemática. A ideia de quantificar a mente deixava de ser um sonho vitoriano e passava a ser uma hipótese científica, sustentada por dados.

Spearman havia encontrado a primeira pegada de algo real, mas estava longe de ter desvendado a criatura. Sua “inteligência geral” não encerrava a questão — apenas inaugurava uma nova era de medições e controvérsias.

As ramificações do fator g

Nos anos 1940, o psicólogo Raymond Cattell propôs que o fator g não era um bloco único, mas uma combinação de duas dimensões complementares: a inteligência fluida — a capacidade de resolver problemas novos, sem depender de aprendizado prévio —, e a inteligência cristalizada, baseada no conhecimento acumulado pela experiência e pela cultura.

A distinção explicava algo que intrigava os pesquisadores desde Spearman: por que uma mente brilhante na juventude às vezes se tornava lenta e inflexível com a idade, enquanto outras pareciam amadurecer em sabedoria? A fluida declinava com o tempo; a cristalizada se enriquecia.

Décadas depois, o psicólogo John Carroll decidiu organizar o que já se sabia. Reuniu mais de 400 estudos que aplicavam um mesmo princípio matemático — a análise fatorial, uma técnica estatística capaz de revelar padrões escondidos em grandes conjuntos de dados. Em vez de observar cada teste isoladamente, ela mostra como as habilidades se agrupam.

Ao comparar décadas de pesquisas, Carroll encontrou sempre o mesmo desenho: no topo, um fator geral (g); abaixo dele, grandes domínios cognitivos — fluência verbal, raciocínio espacial, velocidade de processamento, memória —; e, na base, habilidades específicas. O modelo de três estratos que ele descreveu em Human Cognitive Abilities (1993) tornou-se o alicerce da psicometria moderna e a estrutura por trás da maioria dos testes contemporâneos de QI. Como disse outro importante teórico da inteligência, “[é] improvável que seu feito monumental… possa ser muito melhorado. Ele será por muito tempo o principal ponto de referência e uma base sólida para a era explicativa da psicologia diferencial”.

Os achados de Carroll seriam mais tarde revisitados por Ian Deary e colaboradores na Universidade de Edimburgo. Eles mostraram que os resultados obtidos por Spearman, um século antes, resistiam ao tempo e à tecnologia: a pontuação em um único fator geral de inteligência explicava boa parte da variabilidade em tarefas cognitivas aparentemente díspares.

A convergência das evidências foi desconfortável para muitos: diferentes métodos, épocas e instrumentos continuavam chegando ao mesmo ponto. Por trás da diversidade das mentes humanas, havia uma ordem persistente — discreta, mas mensurável. Algo que realmente permitiria dizer que algumas pessoas eram mais inteligentes do que outras.

Essa persistência, porém, não selou o consenso. Se alguns viam no fator g uma espécie de esqueleto da mente, outros passaram a considerá-lo um artifício estatístico, um reflexo das condições culturais em que os testes eram criados. Nas décadas seguintes, novas vozes surgiriam para contestar a ideia de uma única inteligência — entre elas, Howard Gardner e Robert Sternberg.

A insistência de um equívoco

No fim das contas, todas as tentativas de redefinir a inteligência — múltiplas, triárquicas, emocionais — acabaram orbitando o mesmo centro de gravidade: as pessoas realmente diferem em algo que os testes captam de modo consistente e preditivo. Algo que corresponde ao seu desempenho em tarefas que exigem raciocínio abstrato, resolução de problemas ou, menos tecnicamente, uma espécie de jogo de cintura cognitivo que evidentemente varia entre os indivíduos.

Esse “algo” não resume tudo o que somos, mas também não é uma invenção estatística. Muito menos é uma ideia criada por cientistas malvados para excluir pessoas — perdoem a caricatura, mas já ouvi muito isso em sala de aula.

Ainda assim, os resistentes são numerosos. Talvez porque, em tempos de igualdade moral, seja desconfortável admitir desigualdades cognitivas. Convém àqueles que trabalham no chão da sala de aula alegar que cada aluno é inteligente “do seu jeito”. A promessa das “múltiplas inteligências” soa mais democrática, mais gentil com as diferenças humanas — mas é cientificamente pouco fundamentada, para dizer o mínimo.

Mas o fato da inteligência geral persiste. Compreender essa unidade — por mais impopular que seja — é o primeiro passo para entender por que insistimos tanto em negá-la.

* Felipe Novaes é psicólogo e professor da PUC-Rio. Divulga o melhor da psicologia científica no Garagem Psi. Atua no cruzamento entre ciência, filosofia e cultura, onde dados e mitos se estranham com frequência. Interessa-se por psicologia evolucionista, história das ideias e pela tensão entre razão e pertencimento em tempos de algoritmo

Publicado originalmente na Revista Questão de Ciência 

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