Depois de anos no centro da música instrumental, Michael Pipoquinha se aproxima da canção

 Depois de anos no centro da música instrumental, Michael Pipoquinha se aproxima da canção

Foto por Pepe Rodrigues

Reconhecido como um dos grandes nomes do contrabaixo brasileiro, músico cearense que já dividiu o palco com Djavan, Gilberto Gil, Hamilton de Holanda, Elba Ramalho e Chico César amplia sua forma de criação ao assumir a própria voz

 

Michael Pipoquinha construiu uma trajetória singular na música brasileira a partir do instrumental, campo em que consolidou reconhecimento e linguagem próprios. Desde muito jovem, seu nome passou a circular entre músicos, festivais e circuitos especializados como sinônimo de excelência instrumental, sensibilidade musical e domínio do contrabaixo. Nascido em Limoeiro do Norte, no interior do Ceará, e radicado em São Paulo desde a adolescência, ele se consolidou como um artista de projeção nacional e internacional.

Ao longo dos anos, dividiu o palco com nomes centrais da música brasileira, como Djavan, Gilberto Gil, Hamilton de Holanda, Yamandu Costa, Arismar do Espírito Santo, Ivan Lins, Elba Ramalho, Chico César, Toninho Horta e João Bosco, integrando projetos que o colocaram em diálogo com diferentes gerações, linguagens e cenas. No cenário internacional, suas referências e conexões passam por artistas como Jacob Collier, Thundercat, John Patitucci e Victor Wooten, além do trabalho mais recente ao lado de Richard Bona, com quem colabora atualmente

Com presença constante em palcos no Brasil e no exterior, incluindo apresentações na Argentina, Uruguai, Colômbia e Bolívia, além de turnês por países como França, Itália, Alemanha, Suíça, Suécia e passagens pelo Oriente Médio, Pipoquinha também teve seu trabalho reconhecido por músicos centrais do jazz internacional, como Stanley Clarke e Victor Wooten.

Sua discografia reflete esse percurso, com álbuns como Cearencinho (2014), Lua (2017), Nosso Mundo, em parceria com Sandro Haick, Cumplicidade, com Pedro Martins, e Um Novo Tom (2023), marcada por trabalhos autorais e colaborações que transitam entre o jazz, a música brasileira e sonoridades globais, sempre com o baixo ocupando o centro da escuta.

“O baixo sempre foi o meu lugar de fala. Foi através dele que construí minha identidade, minha linguagem e minha relação com a música. Tudo o que vivi até aqui, família, território, referências e encontros, passou primeiro pelo instrumento”, explica o artista.

Nos últimos anos, no entanto, Pipoquinha passou a viver um movimento de investigação mais silencioso. Sem abandonar o contrabaixo, ele começou a se aproximar da canção como forma de comunicação mais direta, interessado na palavra, na letra e na possibilidade de se colocar também na linha de frente da música. A voz, antes ausente como eixo central de sua obra, passa a integrar o processo criativo como mais uma camada de expressão.“Durante muito tempo, tudo o que eu precisava dizer estava no instrumental. Mas chegou um momento em que isso não era mais suficiente. Quando escrevi A Minha Pele, percebi que havia coisas que só poderiam existir com palavras. Foi ali que entendi que podia e precisava cantar”, comenta.

Esse gesto não surge como ruptura, mas como consequência natural de um desejo de aprofundamento. A técnica e a improvisação seguem presentes, agora a serviço de uma escuta mais aberta, atravessada por afetos, experiências pessoais e vontade de diálogo. O deslocamento não é de linguagem, mas de foco: o instrumento deixa de ser o único mediador entre artista e público.

“Eu queria que minha música chegasse também a quem não é músico, que fizesse parte do cotidiano das pessoas. A canção me abriu essa possibilidade de diálogo, de identificação e de troca. Quero que as pessoas convivam com a minha música, que ela seja um lugar de encontro.” complementa Pipoquinha.

Reconhecido por músicos e públicos de diferentes cenas, citado por referências internacionais e com trajetória consolidada na música instrumental, Michael Pipoquinha vive hoje um momento em que escuta e criação caminham juntas. Ao se aproximar da canção e assumir a própria voz, ele amplia seu campo de atuação artística e prepara o terreno para os próximos passos de uma obra que se expande sem perder coerência.

 

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