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Como a pseudociência se tornou uma ferramenta de opressão social

Um ponto central da análise é a crítica à ideia de que o método científico seria, em si, inerentemente eurocêntrico ou opressor. Os autores defendem que a ciência não é um conjunto fixo de dogmas, mas um processo metodológico autocorretivo, historicamente capaz de revisar erros, abandonar teorias equivocadas e incorporar novas perspectivas

Em meio ao crescimento das críticas à ciência moderna e à valorização de saberes alternativos, um debate vem ganhando força nas ciências humanas e na filosofia da ciência: até que ponto a rejeição da ciência abre espaço para novas formas de opressão? Essa é a questão central do artigo “Science Against Oppression and Pseudoscientific Dogma”, assinado por André Demambre Bacchi e Bruna Stievano Bacchi, pesquisadores de universidades federais brasileiras.

Os autores partem do reconhecimento de que a ciência ocidental foi, em diferentes momentos históricos, instrumentalizada para legitimar desigualdades sociais. Teorias como a eugenia, a frenologia, o racismo científico e a patologização da homossexualidade são exemplos de discursos apresentados como científicos que sustentaram políticas de exclusão, violência e controle social. Essas práticas ajudaram a alimentar críticas contemporâneas que associam a ciência a projetos coloniais e ao chamado “epistemicídio” — a supressão sistemática de saberes não ocidentais.

O artigo, no entanto, sustenta que confundir ciência com seus usos ideológicos equivocados representa um erro conceitual. Para os autores, abandonar a ciência em nome do relativismo epistemológico não apenas fragiliza a produção de conhecimento confiável, como também favorece a disseminação de pseudociências — discursos que imitam a linguagem científica, mas rejeitam critérios básicos como evidência empírica, revisão por pares e possibilidade de refutação.

A pseudociência, argumentam o autor e a autora, tem sido historicamente um instrumento eficaz de opressão. Ao longo do texto, são analisados exemplos que vão da histeria feminina no século XIX às terapias de “reversão sexual”, passando por teorias raciais, negacionismo climático e movimentos antivacina. Em comum, esses discursos compartilham a aparência de rigor científico, mas operam com dados distorcidos, argumentos circulares e isolamento em relação à crítica acadêmica.

O artigo também destaca que a pseudociência prospera em contextos de desconfiança institucional e falhas na comunicação científica. Em situações de crise social, econômica ou sanitária, explicações simples e reconfortantes tendem a ganhar adesão, mesmo quando carecem de fundamento empírico. Esse fenômeno, segundo os autores, reforça preconceitos já existentes e naturaliza desigualdades sob o verniz da “verdade científica”.

Um ponto central da análise é a crítica à ideia de que o método científico seria, em si, inerentemente eurocêntrico ou opressor. Os autores defendem que a ciência não é um conjunto fixo de dogmas, mas um processo metodológico autocorretivo, historicamente capaz de revisar erros, abandonar teorias equivocadas e incorporar novas perspectivas. Foi esse mesmo processo que permitiu, por exemplo, a refutação do racismo biológico, da inferioridade intelectual feminina e da noção de “raças humanas” como categorias naturais.

Em vez de rejeitar a ciência, os autores propõem seu fortalecimento ético e metodológico. Isso inclui maior diversidade nos espaços de produção do conhecimento, vigilância contra conflitos de interesse e compromisso com valores como responsabilidade social, transparência e abertura ao escrutínio público. A ciência, argumentam, não garante automaticamente resultados socialmente justos, mas oferece ferramentas indispensáveis para desmontar narrativas falsas que sustentam opressões.

Ao final, o artigo sustenta que o combate à desigualdade não passa pelo abandono da racionalidade científica, mas pela sua radicalização crítica. Distinguir ciência de pseudociência, segundo os autores, é uma tarefa política e ética, essencial para enfrentar o uso do conhecimento como instrumento de dominação — ontem e hoje

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