Sociedade

Cepe digitaliza acervo documental de Gregório Bezerra

A Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) está finalizando a digitalização do conjunto documental e iconográfico de Gregório Bezerra (1900–1983), uma das figuras centrais da história política pernambucana e brasileira no século XX. O material — composto por documentos, fotografias, cartas e publicações — foi doado pela família do dirigente comunista ao Memorial da Democracia de Pernambuco Fernando de Vasconcellos Coelho, em janeiro do ano passado, e ficará disponível para consulta pública no site da Cepe.

A iniciativa amplia o acesso a registros fundamentais da trajetória de Gregório Bezerra, que atuou como líder político, sargento do Exército, sindicalista e deputado federal constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1946. O processo de digitalização é conduzido pela Superintendência de Digitalização da Cepe, e os arquivos poderão ser acessados na seção Acervo Cepe do portal da editora. Já os documentos originais em papel serão encaminhados ao Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, responsável por sua guarda permanente.

Com mais de 600 itens, o acervo começou a ser organizado em junho de 2025. O trabalho contou com a atuação da economista Lília Gondim e da professora e pesquisadora Socorro Ferraz, integrantes da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara e do Conselho Deliberativo do Memorial da Democracia. Segundo Lília Gondim, o material passou por levantamento, classificação e catalogação, sendo estruturado em categorias como periódicos, fotografias, correspondências, documentos pessoais, registros da Constituinte de 1946, além de textos e publicações diversas.

Registro de jornal quando Gregorio Bezerra recebeu sentença de 19 anos de prisão

O conjunto reúne escritos do próprio Gregório Bezerra, textos assinados por personalidades como Frei Betto e Francisco Julião, além de fotografias, recortes de jornais e revistas, panfletos e discursos de campanha. Os documentos atravessam diferentes momentos de sua trajetória política, desde a atuação junto aos trabalhadores rurais até a eleição para a Assembleia Constituinte de 1946, a cassação dos mandatos comunistas em 1948 e a devolução simbólica de seu mandato, ocorrida em 2013.

Para a secretária-executiva de Direitos Humanos do Estado e presidente do Conselho Deliberativo do Memorial da Democracia, Fernanda Chagas, a digitalização representa um legado de longo alcance. Ela destaca que o acesso público a um acervo de alto valor histórico, social e simbólico contribui para a compreensão de trajetórias individuais profundamente ligadas a processos coletivos vividos pelo país, especialmente em contextos de autoritarismo, repressão e resistência.

O vice-presidente do Conselho Deliberativo do Memorial e diretor administrativo e financeiro da Cepe, Igor Burgos, também ressalta o papel institucional da iniciativa. Para ele, preservar e difundir a documentação de Gregório Bezerra significa manter viva a memória de uma trajetória marcada pela luta democrática e pela justiça social, reafirmando a função da Cepe como guardiã da memória pública.

A doação do acervo foi motivada pelo desejo da família de garantir a preservação e a difusão da história de Gregório Bezerra. De acordo com o neto Jurandir Bezerra Filho, a decisão busca assegurar que as gerações atuais e futuras tenham acesso à trajetória de alguém que dedicou a vida à defesa de um povo historicamente marcado por perseguições e desigualdades.

Quem foi Gregório Bezerra

Nascido em 13 de março de 1900, em Panelas de Miranda — atual município de Panelas, no Agreste pernambucano —, Gregório Lourenço Bezerra era filho de agricultores e ficou órfão ainda na infância. Mudou-se para o Recife, onde trabalhou como carregador de bagagens, ajudante de obras e jornaleiro. Aprendeu a ler apenas na vida adulta. Sua militância política começou cedo: foi preso pela primeira vez em 1917, ao apoiar greves operárias. Após passagem pelo Exército, filiou-se ao PCB em 1930 e voltou a ser preso em 1935, por envolvimento na Intentona Comunista.

Deputado federal constituinte em 1946, Gregório Bezerra foi perseguido e preso em diferentes períodos de sua vida política, além de ter vivido no exílio na antiga União Soviética entre 1969 e 1979. Em 1964, tornou-se símbolo da repressão da ditadura militar ao ser submetido à tortura pública nas ruas do bairro de Casa Forte, no Recife, em 2 de abril daquele ano.

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