Música

Cássio Cunha: da latinha de Guaraná ao palco com Alceu Valença

O baterista pernambucano Cássio Cunha relembra formação musical, trajetória ao lado de grandes nomes da música brasileira e faz reflexão crítica sobre a desvalorização do músico no Brasil

Por AD Luna

O primeiro contato de Cássio Cunha com a música não aconteceu em uma sala de aula nem em um estúdio profissional, mas no meio de um cortejo de escola de samba, em João Pessoa. Ainda criança, ele improvisava instrumentos com o que tinha à mão. “Eu pequenininho pegava uma latinha de Guaraná Antártica e ficava tentando acompanhar os tamborins. Eu até entrava no meio do cortejo e a galera me expulsava: ‘sai daqui, menino’”, relembra, entre risos.

Baterista, professor e músico, Cássio Cunha acompanha Alceu Valença há quase 30 anos e construiu uma trajetória marcada pela pesquisa rítmica, pela música instrumental e pela atuação ao lado de grandes artistas da música brasileira. Em entrevista ao programa InterD – ciência e cultura, da Rádio Universitária FM do Recife, ele revisitou sua história, suas influências e falou sobre os desafios da profissão no cenário atual.

Formação entre Pernambuco, jazz e heavy metal

Nascido e criado no Recife, Cássio cresceu em um ambiente musical diverso. “Meu pai ouvia de tudo: Luiz Gonzaga, Secos e Molhados, Beatles. Ele sempre foi muito eclético, e isso foi me sensibilizando para a música”, conta. A convivência com a diversidade cultural pernambucana também teve papel central em sua formação, ainda que, inicialmente, de forma inconsciente.

Na adolescência, o interesse tomou rumos inesperados. “Eu gostava muito de heavy metal, principalmente Iron Maiden. Ouvi tudo deles”, diz. Mais tarde, veio o jazz. Seu primeiro CD foi de um trompetista do gênero, Harry James, e a partir daí a escuta se aprofundou. A formação formal aconteceu no Conservatório Pernambucano de Música, ao mesmo tempo em que tocava com músicos mais experientes da cena local, como Nilton Rangel, Nando Rangel e Jeová da Gaita.

“Essa prática de tocar em quartetos, trios e quintetos, principalmente música instrumental, foi fundamental para entender forma, espaço de solo e estrutura musical”, afirma. Segundo ele, a criação da prática de conjunto no conservatório foi decisiva para sua compreensão do jazz e do blues.

Ouça a entrevista na íntegra

Do Recife ao Rio e os encontros decisivos

No início dos anos 1990, Cássio se mudou para o Rio de Janeiro, onde sua carreira tomou outro rumo. “Em 1992, recebi o convite para tocar com Geraldo Azevedo, e foi aí que comecei a acompanhar cantores de forma mais contínua”, explica. Antes disso, havia tocado majoritariamente com formações instrumentais.

No Rio, trabalhou com nomes como Sivuca, Geraldo Azevedo e Moraes Moreira. “O DVD Moraes Moreira Acústico, pela MTV, foi um divisor de águas na minha carreira”, destaca. Em 2003, veio o convite definitivo para integrar a banda de Alceu Valença, após participações pontuais em gravações e carnavais. “Desde 2003 estou tocando direto com ele”, resume.

Ouça a entrevista no Spotify

O professor e a pesquisa dos ritmos brasileiros

Paralelamente à carreira nos palcos, Cássio sempre manteve uma atuação intensa como professor. “Mesmo antes de ir para o Rio, eu já dava aula meio que empiricamente”, conta. Com o tempo, a docência se tornou um campo de pesquisa e sistematização, especialmente voltado aos ritmos brasileiros.

Esse trabalho resultou em dois livros: IPC – Independência Polirítmica Coordenada e ARB – Centro de Ritmos Brasileiros. “Eles definem bem a minha percepção de como estudar os ritmos brasileiros e desenvolver uma linguagem brasileira na bateria”, explica.

Outro momento decisivo foi o contato com o método Spivak, por meio de aulas com Christian Noyes, entre 2005 e 2010. “Eu já estava sentindo dores, problemas de postura, tendinite. Esse curso foi outro divisor de águas”, afirma. Segundo ele, a metodologia transformou sua relação com a técnica, priorizando relaxamento, sonoridade, controle de dinâmica e longevidade profissional. “Tocar de forma saudável, sem se machucar, é fundamental para ter uma carreira longa.”

Um olhar crítico sobre o futuro da música

Ao falar sobre o futuro da música em Pernambuco e no Brasil, Cássio adota um tom crítico e cauteloso. “O que eu desejaria era que as pessoas tivessem mais acesso à música de qualidade, porque isso está diretamente ligado à educação”, afirma. Para ele, a precarização da profissão é um dos grandes problemas do presente.

“Nos streamings, os músicos não têm mais ficha técnica, não recebem direitos conexos. Isso é muito preocupante e desestimulante”, diz. Segundo Cássio, a ausência de reconhecimento do trabalho do músico afeta não apenas a remuneração, mas o próprio status profissional da categoria.

“O músico estuda a vida toda. Para estar em forma, precisa estar em contato com o instrumento praticamente todos os dias, e ganha muito menos do que outras profissões”, compara. Apesar de reconhecer que sua trajetória ao lado de um artista de grande projeção lhe garante estabilidade, ele pondera: “Tem muita gente que se dedica a vida inteira e não consegue chegar nesse ponto.”

Mesmo com o tom pessimista, Cássio não descarta mudanças. “Como diz o Yoda, ‘difícil de prever o futuro é, porque em movimento sempre está’”, brinca. Ainda assim, reforça que sem mobilização da classe e ações mais incisivas, o cenário tende a continuar difícil.

“Eu queria ver o músico sendo valorizado, com seu esforço e sua arte reconhecidos e remunerados. Senão, não sei se hoje em dia vale muito a pena ser músico profissionalmente”, conclui.

Cássio Cunha pode ser acompanhado no Instagram, pelo perfil @cassiocunha.

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