Dorsal Atlântica. Carlos Lopes ao centro Foto: Billy Albuquerque
O guitarrista, vocalista e fundador da Dorsal Atlântica, Carlos Lopes, foi o convidado da edição 66 do programa InterD – Ciência e Cultura, veiculado nesta quarta-feira (22), às 20h, na Universitária FM do Recife, com apresentação de AD Luna e Ellen Carvalho. A entrevista também está disponível nas principais plataformas digitais.
Durante a conversa, Lopes fez uma verdadeira aula sobre a história do rock pesado brasileiro, relembrando desde os primórdios da cena até o momento atual da banda. Com o humor ácido e a lucidez que marcam sua trajetória, o músico refletiu sobre arte, política, espiritualidade e as transformações culturais do país nas últimas décadas.
Carlos recordou os anos 1970 e o início de sua paixão pelo rock, em um Brasil ainda sem estrutura para o gênero. “Não havia heavy metal no Brasil. Existiam bandas de rock pesado, mas os instrumentos eram nacionais, de qualidade duvidosa. Mesmo assim, a gente insistia”, contou. Ele associou sua decisão de fundar a Dorsal Atlântica, em 1981, ao clima político da época: “Dois atentados me forjaram — o do RioCentro e o da OAB do Rio. Aquilo me marcou profundamente.”
Antes do clássico “Antes do Fim” (1986), primeiro LP solo da banda, a Dorsal já havia lançado o split álbum “Ultimatum” (1985), ao lado do Metalmorphose. “Antigamente a gente chamava isso de ‘pau de sebo’, antes do inglês dominar tudo”, lembrou o músico. “O ‘Antes do Fim’ foi o primeiro disco em que fomos contratados para gravar, mas já ali nos ferraram — não recebemos pagamento, fomos humilhados. Mesmo assim, o disco virou um marco e ajudou a fundar o movimento extremo no Brasil.”
O álbum, relançado recentemente pelo selo Rocinante Discos, é motivo de orgulho para o artista: “Tenho muito orgulho de estar num selo que tem Gilberto Gil, Chico César, Jards Macalé e Pabllo Vittar. Isso me representa mais do que qualquer rótulo de metal. Cresci ouvindo Martinho da Vila, Clara Nunes, Clementina de Jesus. Isso tudo está dentro de mim.”
Com sua verve crítica, Carlos Lopes fez uma análise contundente das mudanças sociais e culturais no Brasil: “O Brasil só acordou para ser Brasil de verdade nos anos 80. Eu associo isso à morte do John Lennon, em 1980 — simbolicamente, foi como se o mundo dissesse que precisava mudar.”
Ele falou ainda sobre o impacto das perdas recentes de grandes referências, como Hermeto Pascoal e o documentarista Silvio Tendler, com quem trabalhou nos últimos quatro anos. “Essas pessoas são insubstituíveis. Nunca haverá outro Hermeto, outro Caetano, outro Gil, outro Graciliano Ramos. O desafio é saber que ‘novo’ será esse mundo que está surgindo.”
Carlos não esconde o incômodo com o que chama de “hipnose do corpo” e da superficialidade contemporânea: “Eu olho à minha volta e só vejo zumbi. Gente obcecada por prazer, poder, aparência. Isso é involução. Eu não tenho mais diálogo com esse mundo.” Para ele, a arte deve sempre ter função social: “Eu não entendo música sem uma função social. Nem quadrinho. A Dorsal nasceu de uma mente dissociada do mundo, mas movida por um sentido de transformação.”
Sobre as mudanças na indústria musical, o músico se declarou avesso ao mercado digital: “Eu nunca botei uma música da Dorsal na rede. Se você encontrar alguma, é pirataria. E tá tudo bem. Recebo direitos autorais de dois em dois anos — às vezes 200 reais, às vezes 27. Esse é o mundo real.”
Questionado sobre o motivo de não divulgar sua obra nas plataformas, foi direto: “Eu tenho 63 anos. Eu vou divulgar o meu trabalho agora? Até hoje, prefiro não fazer concessões. O Spotify paga 5 dólares pra quem tem 100 mil audições. Eu tenho orgulho de ser um teimoso reacionário que ainda acredita em objeto físico.”
A teimosia, segundo ele, é o que o mantém fiel à sua trajetória. “Eu não abro a perna, não faço acordo, quero que se foda. Estou há 45 anos sendo assim. É insanidade, mas é o que eu sou.”
Após encerrar a Dorsal Atlântica em 1998, logo depois de tocar no Monsters of Rock ao lado de Slayer, Dream Theater e Saxon, Lopes passou uma década explorando novas sonoridades — misturando baião, soul e rock brasileiro. “Fui rejeitado pelo heavy metal, mas eu só estava sendo livre”, disse.
Em 2012, um convite para tocar em um festival no Maranhão reacendeu o impulso criativo. “Quando o produtor me ligou, eu senti que era hora de voltar. E uma vizinha me falou de crowdfunding — que ninguém fazia no Brasil ainda. Eu fui lá e fiz. Deu certo.”
Desde então, Lopes se tornou um dos pioneiros do financiamento coletivo no país. “De 2012 pra cá, nunca uma campanha minha deu errado. Já financiei discos, camisetas, livros e quadrinhos. Fui xingado, disseram que eu estava pedindo esmola, mas hoje todo mundo faz. Eu só fundei uma revolução.”
Atualmente, Carlos Lopes lidera uma nova campanha para o disco “Miseri Nobilis”, obra inspirada no movimento modernista de 1922 e nas raízes nordestinas do modernismo. “O nome já é uma ironia. O disco é revolucionário, e o ponto de partida é o tropicalismo — que nasceu da Semana de Arte Moderna, mas é essencialmente baiano”, explica.
O músico revela que o novo trabalho traz influências diretas de Vila-Lobos e Hermeto Pascoal, artistas que ele define como “amores da vida”. “Chegou a hora de apertar o botão do fim do mundo. Esse disco é isso: uma declaração de que ainda é possível fazer arte com consciência, sem se vender, sem concessões.”
OUÇA A ENTREVISTA COMPLETA
OUÇA TAMBÉM NAS PLATAFORMAS
Spotify
https://open.spotify.com/episode/7toywiykCuJUELAZPTiLOg?si=aPykKkx_Rk2A3JmPUoIKqw
A Radian Arc, parte da inferX, a plataforma de infraestrutura de GPU e IA em…
A LabVantage Solutions, Inc., provedora mundial de soluções e serviços de informática laboratorial, anunciou hoje…
A Unicharm Corporation (TÓQUIO: 8113) vem acelerando suas operações comerciais para reduzir a desigualdade de…
A Estée Lauder Companies Inc. (NYSE: EL) anunciou hoje que celebrou um acordo, sujeito a…
A Onego Bio, empresa de ingredientes alimentícios que produz proteína de ovo não animal, e…
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, a artista visual Soberana Ziza inaugura, em 7…