Cannibal relembra origem da Devotos e o poder social do punk; leia e ouça

 Cannibal relembra origem da Devotos e o poder social do punk; leia e ouça

Cannibal. Foto: Renata Victor

Entre as referências decisivas para sua trajetória, Cannibal destaca o vocalista Clemente Nascimento, da banda paulista Inocentes, que anos depois também passaria a integrar a Plebe Rude, de Brasília

Por AD Luna*

Marconi dos Santos Souza é uma figura da cultura pernambucana. Mais conhecido como Cannibal, ele está à frente de uma das bandas mais emblemáticas do universo punk e hardcore de Pernambuco e do país. Formada em 1988, a Devotos foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife em 2024 pela Câmara Municipal. A iniciativa partiu da vereadora Cida Pedrosa (PCdoB), como forma de reconhecimento pela relevância cultural do trio e por sua atuação junto à comunidade do Alto José do Pinho, na periferia da capital pernambucana.

Nesses quase 40 anos de Devotos, o baixista e vocalista, junto com os amigos e companheiros  Celo Brown (bateria) e Neilton (guitarra), transformou experiências vividas no Alto e observações aguçadas sobre a realidade social em música. Na série Minha História, do programa InterD – ciência e cultura (ouça o programa na íntegra), o músico relembrou como o movimento punk mudou sua visão de mundo e levou à criação da banda.

Cannibal conta que sua relação com a música começou de forma indireta. Na adolescência, ele se dedicava ao futebol e chegou a jogar nas categorias de base do Santa Cruz, chegando ao limiar de integrar a equipe de juniores do tradicional clube pernambucano. A virada ocorreu em meados dos anos 1980, quando entrou em contato com uma das inúmeras vertentes do rock.

Entrei nesse universo da música através do movimento punk, em 1984. Ali comecei a ver o mundo de outra forma”, afirma. Segundo ele, a música deixou de ser apenas diversão e passou a ser um instrumento de reflexão e transformação social. “Eu não tinha discernimento de quanto a arte era um mecanismo forte e necessário para a mudança social. Quando percebi isso, comecei a ler mais e entender que podia ajudar de alguma forma por meio da música.”

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Banda nasceu quase por insistência

A rápida identificação com o movimento não resultou na imediata formação de uma banda do estilo. Cannibal acabou encarando o desafio por influência, ou melhor, insistência, do amigo Lael, então baixista de outra banda punk da época, a SS-20. 

A propósito, na segunda metade dos anos 1980, o Recife passava por uma intensa movimentação de criação de bandas punks, hardcore e de metal. Muitos shows, inclusive, ocorriam em espaços underground das periferias, com equipamentos de som e instrumentos precários. Era comum, por exemplo, que as baterias disponíveis fossem caseiras, fabricadas artesanalmente.

Ele disse: ‘forma tua banda, o nome vai ser Devotos do Ódio e vocês vão tocar no dia 6 de agosto’”, lembra Cannibal, a respeito de Lael. O convite foi feito meses antes do show, em um ponto de encontro de jovens punks no centro da cidade.

Mesmo sem experiência musical, Cannibal reuniu amigos e começou a compor. “Eu nunca tinha escrito uma letra nem pegado num instrumento. A gente aprendeu tudo junto: três acordes, quatro frases rimadas e vamos embora”, conta.

O primeiro show aconteceu no dia 6 de agosto de 1988, no 3º Encontro Antinuclear, na Academia Sino-Pernambucana de Kung Fu, no centro do Recife. O festival ocorria sempre nesta data, como forma de relembrar a bomba atômica lançada pelos Estados Unidos, na cidade de Hiroshima, Japão, em 1945.

Os encontros antinucleares eram organizados pelo falecido Nado, então vocalista da banda local de crossover (estilo que une elementos do hardcore e do metal) Realidade Encoberta – o grupo segue até hoje na ativa.

Para Cannibal, aquele momento ainda é um marco: “O primeiro show é inesquecível. A gente subiu no palco e deu uma paixão enorme de querer fazer mais, mais e mais.”

Naquele show, a banda ainda não contava com Neilton, que entrou depois. O responsável pela guitarra naquele dia foi Ancelmo, cujo apelido era Amendoim, “por comer demais”, amigo de adolescência de Cannibal.

Influências e representatividade no rock

Entre as referências decisivas para sua trajetória, Cannibal destaca o vocalista Clemente Nascimento, da banda paulista Inocentes, que anos depois também passaria a integrar a Plebe Rude, de Brasília. Ao ler uma entrevista com o músico em uma revista encontrada em um sebo do Recife, ele sentiu que havia ali uma identificação direta com sua realidade.

Quando terminei de ler, pensei: esse cara está falando do Alto José do Pinho, do meu cotidiano”, diz. “Até então, você via um negro como frontman no rap, no reggae ou no samba, mas no rock era muito raro. Quando vi Clemente ali, parecido comigo, foi um alerta muito positivo.”

Segundo Cannibal, a descoberta abriu novas possibilidades de representação no rock brasileiro. “Eu me via no palco através dele. Até hoje Clemente é um cara que me inspira muito, é meu ídolo”.

Punk como forma de expressão social

Desde o início, a Devotos optou por composições próprias e por letras que retratassem a realidade da periferia. O objetivo não era buscar sucesso comercial.

Se fosse para pensar em sucesso, talvez a gente montasse um grupo de pagode ou algo mais voltado para rádio”, diz Cannibal. “A gente escolheu o punk no final da ditadura, um estilo que não tinha abertura nenhuma na mídia. A ideia era se expressar, falar dos nossos direitos e do nosso cotidiano.”

As letras abordavam temas como saneamento, segurança pública e desigualdade social. Ao mesmo tempo, o movimento punk funcionou como espaço de aprendizado político e cultural.

Nos fanzines e nas conversas do movimento, a gente aprendia coisas que nunca tinham sido faladas na escola — sobre Malcolm X, Chico Mendes, Antônio Conselheiro ou sobre a própria cultura pernambucana”, afirma.

Do preconceito ao reconhecimento

Ao longo de quase quatro décadas de carreira, a banda acumulou momentos marcantes. Entre eles estão turnês internacionais e apresentações em grandes festivais.

A primeira turnê na Europa foi muito forte para a gente. Passamos quase um mês tocando por lá”, lembra Cannibal. Outro episódio simbólico foi o convite para tocar no Rock in Rio ao lado da banda Black Pantera. “Eu já admirava muito o trabalho deles. Estar naquele palco foi inesquecível.”

Antes desse reconhecimento, porém, a realidade era bem diferente. O músico relata episódios frequentes de abordagem policial quando a banda voltava de shows.

A gente descia do Alto José do Pinho para tocar em outros bairros e voltava de madrugada. Muitas vezes a polícia mandava a gente deitar no chão e dizia que os instrumentos eram roubados”, recorda. “Mesmo assim, nunca pensamos em parar.”

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Música e autoestima comunitária

Para Cannibal, uma das principais contribuições da Devotos foi ajudar a transformar a percepção sobre o bairro onde a banda surgiu. Durante muitos anos, o Alto José do Pinho era retratado pela mídia apenas por episódios de violência.

A gente conseguiu colocar o Alto José do Pinho nas páginas culturais”, afirma. “Antes, muita gente dizia que morava em Casa Amarela porque tinha vergonha de dizer que era do Alto. Hoje as pessoas falam com orgulho.” Ele destaca que essa mudança não foi resultado apenas da banda, mas de um conjunto de iniciativas culturais e sociais da comunidade. “Ninguém faz nada sozinho”, reforça.

Entre os nomes citados por Cannibal estão bandas como Nanica Papaya, A Ostenta, Terceiro Mundo, O Verbo, Faces do Facão do Subúrbio e Matalanamão. Ele também menciona manifestações e grupos culturais do bairro, como o Maracatu Estrela Brilhante, o Afoxé Ylê de Egbá, as escolas de samba Gigantes do Samba e Galeria do Ritmo, além da Quadrilha Junina Raízes do Pinho e do Centro Social Dom João Costa.

Na lista aparecem ainda figuras conhecidas da comunidade, como dona Detinha, ex-líder comunitária que, segundo o músico, “já tá em outro plano de vida”, além de Silvio Guarda, “que também já tá em outro plano de vida”, e Marcos Simão, entre outros nomes lembrados por ele.

Quando você quer mudar um quadro social, primeiro precisa levantar a autoestima das pessoas”, diz. “A música ajudou muito nisso.”

Arte como transformação

Depois de quase 40 anos de atividade, Cannibal afirma que a Devotos continua motivada a compor e gravar novas músicas. Mais do que números ou popularidade, ele valoriza o impacto social da arte.

Prefiro ter qualidade no público do que quantidade”, afirma. “A arte que faz pensar, que faz questionar e reivindicar direitos é um ganho enorme para a sociedade.

Para o músico, esse é o futuro que gostaria de ver para a música no Brasil: “Eu queria que as artes de transformação fossem mais ouvidas e mais presentes nas grandes mídias.”

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