Ciência e saúde

Ciência básica prepara terreno para revoluções tecnológicas

A ciência aplicada colhe os frutos; a ciência básica prepara o solo e planta a semente. Sem ela, nada floresce

Por João Lucas da Silva*

De vez em quando, alguém solta aquela pergunta que parece tão simples quanto devastadora (especialmente para quem é paleontólogo e tem irmão engenheiro): “Por que gastar o dinheiro dos nossos impostos com pesquisas que não ajudam em nada?”. É o tipo de questão que aparece, soando sensata, quando a sociedade perde contato com a natureza da ciência e esquece que quase tudo o que chamamos hoje de “tecnologia útil” nasceu de curiosidade aparentemente inútil. Ainda assim, as pessoas têm o direito de questionar.

Essa desconfiança em relação à ciência básica não é nova, é claro. Em 1980, por exemplo, Ronald Reagan, então candidato à Presidência dos Estados Unidos, questionou por que o governo deveria “subsidiar a curiosidade intelectual”. A frase é de uma pobreza filosófica monumental, mas é eficaz como retórica política. O curioso é que o mesmo país que deu palco a esse tipo de discurso nasceu com uma visão oposta. Em 1790, George Washington afirmou diante do Congresso que “nada é mais digno de nosso patrocínio do que o fomento da ciência e da literatura. O conhecimento é, em todo e qualquer país, a base mais segura da felicidade pública”.

Os Estados Unidos, por sinal, se encontram agora numa situação conturbada. A paralisação do governo, que já dura quase três semanas, vem devastando a infraestrutura científica do país. Milhares de funcionários públicos podem ser demitidos, incluindo centenas do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), o que ameaça programas essenciais de vigilância em saúde. Agências como a National Science Foundation e os Institutos Nacionais de Saúde suspenderam a concessão de novos financiamentos, interrompendo dezenas de painéis de revisão de projetos. O Departamento de Energia cancelou bilhões de dólares em pesquisas, afetando desde o desenvolvimento de tecnologias limpas até estudos sobre eficiência energética. Museus, laboratórios e centros de pesquisa federais, como o Smithsonian e a NOAA, estão com funcionamento comprometido ou até mesmo fechados, e universidades já preveem cortes e demissões.

E isso nos traz de volta às duas visões de mundo em conflito: uma que enxerga a ciência de base como luxo ou desperdício, e outra que a reconhece como alicerce do progresso. O problema é que a primeira costuma dominar justamente quando os resultados da segunda se tornam invisíveis no curto prazo, porque esquecemos que boa parte da tecnologia de que dependemos hoje foi, um dia, mera abstração teórica, um rabisco de alguém movido pela curiosidade.

Carl Sagan (sempre ele) expôs a situação de forma muito clara com um exemplo hipotético (no capítulo “Maxwell e os nerds” do livroO Mundo Assombrado Pelos Demônios, que me inspirou a discutir esse tema). Imagine que é 1860 e você é a rainha Vitória e deseja uma máquina capaz de transmitir sua voz e sua imagem a todos os súditos do império, sem fios, para que suas mensagens inspirem lealdade até nas fazendas mais distantes. Você convoca seus melhores cientistas e lhes passa essa tarefa. Será que eles conseguiriam realizar tal proeza? Para Sagan, muito provavelmente não. Os melhores engenheiros e inventores do mundo talvez lhe respondessem que a vossa majestade está descrevendo magia.

E, no entanto, naquele mesmo período, um certo James Clerk Maxwell, um escocês de gênio excêntrico e curiosidade inesgotável, estudava a interação entre eletricidade e magnetismo, dois fenômenos que pareciam distintos. Ninguém lhe havia pedido uma aplicação prática. Ele não estava tentando construir rádios nem televisores; queria apenas compreender um mistério da natureza. O resultado desse impulso teórico foram as célebres equações de Maxwell, que unificaram eletricidade, magnetismo e luz num mesmo arcabouço conceitual.

Entre 1886 e 1889, outro físico, o alemão Heinrich Hertz, demonstrou experimentalmente a existência das ondas eletromagnéticas previstas por Maxwell (inclusive ondas que depois receberiam o nome de ondas de rádio). Poucos anos mais tarde, em 1901, Marconi transformou esse conhecimento em comunicação sem fio, ao realizar a primeira transmissão de rádio transatlântica. E, um século depois, as mesmas equações sustentariam todo o edifício da eletrônica moderna — dos satélites aos celulares, do Wi-Fi às transmissões que permitem que você leia este texto agora.

Maxwell não inventou o rádio, mas sem ele o rádio seria inconcebível. Esse é o ponto: nenhuma ordem governamental, nenhum edital pragmático, teria produzido suas equações. Elas nasceram da curiosidade, não da utilidade.

Carl Sagan resume isso com a clareza admirável de sempre:

“O problema é que dar ordens a alguém para criar uma invenção específica, ainda que o preço não constitua um obstáculo, não garante que ela seja realizada. Pode haver uma base de conhecimento ainda ignorada, sem a qual ninguém conseguirá construir o invento que se tem em mente”.

A lição é simples: não podemos atender apenas às necessidades imediatas. Se o fizermos, jamais abriremos novos caminhos. É a ciência básica que prepara o terreno para as revoluções tecnológicas — mesmo que nem sempre saibamos o que estamos plantando. Newton não sonhava com satélites quando estudava o movimento da Lua; Wilhelm Roentgen não pensava em diagnósticos médicos quando descobriu os raios X; Marie Curie não buscava terapia contra o câncer ao isolar o rádio; Fleming não queria salvar milhões de vidas quando notou um mofo estranho em sua placa de Petri. E Rosalind Franklin, Watson e Crick, decifrando a estrutura do DNA, não imaginavam a biotecnologia contemporânea.

Todas essas descobertas nasceram de perguntas desinteressadas, movidas por uma curiosidade que, à época, muitos consideravam inútil. É como cultivar um campo de sementes sem saber quais delas brotarão. Algumas não germinam, outras se perdem, mas de tempos em tempos uma dá origem a uma floresta inteira.

O problema é que, em momentos de crise econômica ou de miopia política, a tentação de “racionalizar” os investimentos científicos volta com força. Corta-se o financiamento da pesquisa básica sob o pretexto de priorizar a ciência aplicada, como se uma pudesse existir sem a outra. É o mesmo que destruir as raízes para cuidar apenas das flores.

Mais uma vez cabe aqui a clareza típica de Sagan:

“Cortar a ciência fundamental movida pela curiosidade é comer a semente do trigo. Talvez tenhamos um pouco mais para nos alimentar no próximo inverno, mas o que plantaremos para que nós e nossos filhos tenhamos o suficiente para atravessar os invernos futuros?”

Esse é o cerne da questão. Quando uma sociedade decide que só vale a pena financiar aquilo que promete retorno imediato, está condenando o futuro. Está dizendo que prefere a saciedade momentânea à sobrevivência das próximas gerações. É o tipo de escolha que transforma civilizações vibrantes em museus de si mesmas.

Pense nisso da próxima vez que ouvir alguém questionar por que deveríamos investir em “ciência inútil”. Porque é dessas áreas “inúteis” que surgem as ideias capazes de mudar tudo, inclusive o próprio conceito de utilidade. Maxwell não imaginava o rádio. No entanto, sem ele, quanto tempo teríamos demorado até que algo como o rádio fosse possível? Curie não sonhava com a medicina nuclear, mas sem ela milhões morreriam.

Não estou dizendo que devemos tirar recurso da ciência aplicada, das engenharias, e colocar na ciência de base. Não, não é isso. Essas áreas também já sofrem bastante. O que precisamos é reconhecer o valor de ambas, e angariar recursos para que ambas se desenvolvam e possam contribuir com a sociedade. Da melhor forma possível, como deveria ser.

A ciência aplicada colhe os frutos; a ciência básica prepara o solo e planta a semente. Sem ela, nada floresce. Não haverá nada a colher. Por isso, apoiar a pesquisa movida pela curiosidade é um ato de responsabilidade com o futuro. É recusar o imediatismo que transforma conhecimento em mercadoria e abraçar a ideia de que entender o mundo é, por si só, um fim nobre. Há pecado em desejar saber o que pode ser sabido?

*João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

ACESSE TAMBÉM

Carl Sagan e o “O mundo assombrado pelos demônios”

Legado científico de Carl Sagan vai muito além da série de TV “Cosmos”

Publicado originalmente na Revista Questão de Ciência

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