Mostra do Grupo II aborda trabalho, violência e as contradições da vida contemporânea no Teatro Arthur Azevedo

Programação apresenta “Por um trabalho” e “Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão” em outubro e novembro, em São Paulo, com montagens que articulam experiências pessoais, desigualdades sociais e pesquisa teatral
O trabalho, suas condições de realização e as relações de poder que atravessam a vida cotidiana são o ponto de partida dos três espetáculos que integram a Mostra do Grupo II no Teatro Arthur Azevedo, em São Paulo. Após as apresentações de “Ofício”, realizadas nos dias 16, 17 e 18 de outubro, o coletivo segue com “Por um trabalho” e “Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão”, que abordam questões como precarização profissional, acessibilidade, luto, especulação imobiliária, violência urbana, segurança pública e encarceramento da população negra. As próximas sessões acontecem na Sala Multiuso do teatro, com ingressos a R$ 30.
Com diferentes propostas de encenação e dramaturgia, as peças aproximam experiências individuais de questões sociais e políticas. Enquanto “Ofício” parte das trajetórias dos próprios atores para discutir as contradições do fazer teatral e as condições de trabalho, “Por um trabalho” acompanha uma entrevista de emprego que se transforma em uma sequência de provações. Já “Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão” leva ao palco as reflexões de um ensaio sobre violência e segurança pública, a partir do encontro entre três homens negros em posições distintas diante de um assalto.
Nos dias 23 e 24 de outubro, é a vez de “Por um trabalho”, com dramaturgia e direção de Marcos Gomes e atuação de Daniela Schitini e Edu Guimarães. A peça acompanha uma candidata a uma vaga em uma repartição pública precarizada, submetida à análise de materiais controversos durante um processo seletivo. A entrevista, inicialmente uma situação cotidiana, passa a funcionar como uma sequência de provações que coloca em questão os limites do que alguém está disposto a fazer para conseguir um emprego.
A dramaturgia imagina um cenário em que a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023 foi bem-sucedida. Embora uma primeira versão do texto tenha sido escrita antes da pandemia, os acontecimentos daquele ano levaram o autor a desenvolver a obra no formato atual. A partir dessa situação ficcional, o espetáculo aproxima a precarização do trabalho e a corrosão democrática, observando como burocracia e relações de poder podem atravessar as atividades cotidianas.
A programação continua nos dias 30 e 31 de outubro e 1º de novembro, com “Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão”. Dirigida por Lucas Mayor, com atuação de Rafael Cristiano e dramaturgia de Evandro Cruz Silva, a montagem parte do ensaio homônimo publicado na edição 44 da revista Serrote. Escrito em primeira pessoa a partir de uma experiência de assalto vivida pelo autor, o texto reflete sobre o encontro entre o homem que o assaltou e o policial que o atendeu, colocando em perspectiva diferentes posições diante da violência.
A adaptação preserva a estrutura ensaística como princípio dramatúrgico e aposta na força do texto e da atuação, com cenário e figurino mínimos. A encenação também dialoga com Sobrevivendo no Inferno, álbum dos Racionais MC’s, referência sonora, estética e política para a abordagem das marcas da formação escravista brasileira e das relações entre propriedade privada, segurança pública e encarceramento da população negra.
As três montagens integram a pesquisa do Grupo II, coletivo que completou dez anos de atuação contínua em 2025. Entre seus eixos de trabalho estão a pesquisa sobre a Forma Breve, a criação coletivizada, a centralidade dos corpos dissidentes e a manutenção de espaços formativos dedicados à dramaturgia, montagem, crítica e performance. A temporada no Teatro Arthur Azevedo também amplia a circulação dos espetáculos e o contato do grupo com diferentes públicos.
SERVIÇO
Mostra do Grupo II
Local: Teatro Arthur Azevedo | Sala Multiuso
Endereço: Av. Paes de Barros, 955, Alto da Mooca, São Paulo
Ingressos: R$ 30
Classificação indicativa: 14 anos
Por um trabalho
Datas: 23 e 24 de outubro
Horários: sexta e sábado, às 21h
Duração: 50 minutos
Dramaturgia e direção: Marcos Gomes
Elenco: Daniela Schitini e Edu Guimarães
Iluminação: Pablo Perosa
Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão
Datas: 30 e 31 de outubro, às 21h; 1º de novembro, às 18h
Duração: 55 minutos
Direção: Lucas Mayor
Dramaturgia: Evandro Cruz Silva
Atuação: Rafael Cristiano
Iluminação: Matheus Brant
Cenografia e figurino: Lucas Mayor
Artista sonoro: Gustavo Rocha
Operação de som: Pablo Perosa
Produção: Maísa Sousa de Castro
Identidade visual: Rafael Cristiano
Fotografia e filmagem: Lucas Mayor
Apoio: Espaço Garganta
