Chinaina defende uso criativo da inteligência artificial e critica domínio dos algoritmos na música

 Chinaina defende uso criativo da inteligência artificial e critica domínio dos algoritmos na música

Chinaina no Caça Joia Clipes. Foto: Hannah Carvalho

Durante entrevista ao InterD, apresentado por AD Luna na Universitária FM do Recife, Chinaina defendeu o uso criativo da inteligência artificial e criticou a lógica dos algoritmos que dominam as plataformas de música

A inteligência artificial pode ampliar as possibilidades criativas dos artistas, desde que seja utilizada com critério e sensibilidade. Essa é a avaliação do cantor, compositor e apresentador Chinaina, que falou sobre o tema em entrevista ao InterD, programa apresentado por AD Luna e veiculado pela Universitária FM do Recife. Durante a conversa, que foi ao ar na quarta (08/7/2026), ele apresentou detalhes sobre seu novo projeto na televisão, o Caça Joia Clipes, que estreou em maio de 2026 no Canal Futura e está disponível gratuitamente na Globoplay.

Nessa edição, o InterD também destacou o EP “Outro astral”, da artista pernambucana Luana Tavares, e os 50 anos do álbum “Doces Bárbaros”, de Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil.

Segundo Chinaina, o Caça Joia Clipes nasceu da percepção de que a produção audiovisual da música independente brasileira cresceu de forma expressiva nos últimos anos, sem que surgissem espaços proporcionais para sua divulgação. “Eu só via a produção de clipe independente aumentar toda hora e não via lugar para essa produção. Vivendo no reinado do algoritmo, fica muito difícil as pessoas descobrirem novos artistas”, afirmou. A proposta do programa, explica, é justamente funcionar como uma vitrine para essa produção que muitas vezes permanece invisível nas plataformas digitais.

O compromisso com essa ideia começou ainda na seleção dos participantes. Chinaina conta que ele e a diretora do programa, Pamela Gachido, assistiram pessoalmente a mais de quatro mil videoclipes inscritos. “Quando eu mando o meu material para alguém, eu espero que essa pessoa escute. Isso é uma forma de respeitar a música e o tempo desse artista. Então foi uma curadoria feita como os antigos faziam. A gente sentou e assistiu aos quatro mil clipes.”

OUÇA A ENTREVISTA (também disponível nas principais plataformas digitais)

Além da qualidade artística, a equipe buscou representar a diversidade da música brasileira. “Era importante ter cuidado com a questão de gênero, contemplar diversos estilos musicais e mapear a música brasileira como um todo. Acho que todos os estados estão representados nessa primeira edição.” Para ele, a criatividade também teve peso decisivo. “A cena independente brasileira faz coisas de tremenda qualidade. Muitas vezes, com pouquíssima grana, a galera consegue fazer um material superinteressante.”

OUÇA O PROGRAMA NA ÍNTEGRA, CLICANDO AQUI.

Essa postura também se reflete na forma como o programa lida com os critérios de seleção. Enquanto as plataformas digitais priorizam métricas de engajamento, Chinaina diz que o Caça Joia Clipes ignora completamente esses indicadores. “A gente descarta essa lógica do algoritmo fazendo o que tem que fazer: assistindo a tudo, sendo muito curioso, pesquisando, indo atrás das coisas.” E completa: “A última coisa que a gente analisa — na verdade, nem analisa — são os números de players ou de seguidores. Sinceramente, a gente está cagando para esse tipo de coisa. O que importa é o talento, a inventividade e a criatividade. Os números a gente deixa para os matemáticos.”

Ao comentar o avanço da inteligência artificial, Chinaina adotou uma posição equilibrada, distante tanto do entusiasmo irrestrito quanto do pessimismo. Para ele, a IA é mais uma ferramenta disponível aos artistas. “Eu vejo que a IA está aí e a gente tem que saber usar. Toda tecnologia traz uma coisa boa e uma coisa ruim.” Embora reconheça que já exista “uma quantidade de música ruim feita por IA” e “músicas sem alma”, ele acredita que isso não define o potencial da tecnologia. “Sabendo usar bem a IA, ela pode ser uma ferramenta.”

Como exemplo, citou o trabalho recente de Lúcio Maia. “O Lúcio Maia acabou de lançar um disco e os clipes dele foram todos feitos em IA. Tem um resultado muito legal e um desses clipes está no Caça Joia Clipes.” Chinaina também lembrou de um videoclipe da cantora e instrumentista Lívia Matos. “Ela fez um clipe incrível usando IA, mas isso é feito com muito bom gosto.”

“Verve” – Lívia Mattos

Na visão do apresentador, o diferencial está justamente na forma como a tecnologia é empregada. “Se for para ser só uma cópia do que já existe, do que é a própria lógica da IA, saindo roubando um pouquinho de todo conceito artístico para criar um pastiche, aí perde o sentido. Mas eu acho que tem como usar a IA de uma forma inteligente.”

A entrevista também abordou as transformações na carreira dos músicos independentes. Chinaina observa que, por um lado, os artistas de hoje chegam mais preparados para lidar com direitos autorais, distribuição digital e gestão da própria carreira do que sua geração, que começou nos anos 1990. Por outro lado, afirma que o volume de tarefas aumentou significativamente. “Hoje, o artista não lança só um disco. Tem que produzir conteúdo para as redes, fazer videoclipes, performar na internet. É muito cansativo.”

“Fetish motel” – Lúcio Maia

Mesmo diante desse cenário, ele defende que o processo de criação continue sendo respeitado. “Eu demoro tempo para fazer disco. Não entro nessa de lançar um single atrás do outro. Acho que a música tem esse processo artesanal e é muito importante respeitar esse processo.” Ao mesmo tempo, reconhece que os artistas precisam lidar com as exigências do mercado atual. “É um sinal dos tempos. Não dá mais para simplesmente lançar um disco e não cuidar dessa outra parte.”

Para Chinaina, apesar dos desafios impostos pelos algoritmos e pelas novas tecnologias, a criatividade continua sendo o principal diferencial da produção artística. E, se utilizada com consciência, a inteligência artificial pode ocupar um lugar importante nesse processo, sem substituir o que se considera essencial: a inventividade humana.

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