“O Agente Secreto”: com ou sem Oscar, filme já representa novo degrau na escalada internacional do cinema brasileiro

O Agente Secreto, filmado inteiramente no Recife, é o primeiro filme brasileiro produzido fora do eixo Sul-Sudeste a atingir 1 milhão de ingressos em apenas seis semanas de cartaz
Por Alfredo Suppia, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
A indicação de O Agente Secreto (2025), de Kléber Mendonça Filho, ao Oscar em 2026 — com quatro nomeações, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Wagner Moura —, na esteira do sucesso de Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles, pode ser indicativa do apogeu de uma história de ascensão do cinema brasileiro.
O início dessa história remonta ao assim chamado Cinema da Retomada (1993-4), quando a extinção da Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme) pelo presidente Fernando Collor de Mello em 1990 forçou a classe cinematográfica a se reinventar.
E ela soube reagir. Na virada dos anos 1990 para os 2000, diferentes gerações de cineastas — de veteranos como Nelson Pereira dos Santos, Eduardo Coutinho e Hector Babenco a jovens como Carla Camurati, Karim Aïnouz e os irmãos João Moreira Salles e Walter Salles — se organizaram à sua maneira.
A retomada de uma trajetória internacional começou com Carlota Joaquina (1995), de Camurati, e O Que É Isso Companheiro? (1997), de Bruno Barreto, ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 1998, Central do Brasil, de Walter Salles, conquistou o Urso de Ouro em Berlim e lançou Fernanda Montenegro como a primeira brasileira indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Cidade de Deus (2002) recebeu quatro indicações à premiação, incluindo a de Melhor Filme. Tropa de Elite (2007) trouxe um segundo Urso de Ouro para o Brasil. Bacurau (2019) venceu o Prix du Jury em Cannes. E Kléber Mendonça, com O Agente Secreto, triunfou em Cannes 2025 com os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator, além do Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama — com Wagner Moura sendo o primeiro sul-americano a vencer a categoria.
Pouco antes, Ainda Estou Aqui venceu a Osella de Ouro de Melhor Roteiro em Veneza (2024), o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama para Fernanda Torres — a primeira atriz brasileira a vencer um Globo de Ouro em atuação — e o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, sendo o primeiro filme sul-americano a alcançar tal distinção. Fernanda Torres tornou-se, assim, a segunda mulher da família a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz, 26 anos após sua mãe, Fernanda Montenegro.
Iniciativas públicas e mobilizações de classe
Embora desdenhado por parte da crítica como espetáculo imperialista, o Oscar habita o imaginário popular de maneira análoga à Copa do Mundo. Mais do que troféus, porém, o que explica a trajetória do cinema brasileiro são décadas de iniciativas públicas e mobilizações de classe.
Dentre os instrumentos legislativos fundamentais, destacam-se: a Lei Sarney (Lei nº 7.505/1986), primeiro mecanismo de incentivo fiscal à cultura no Brasil; a Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991), que instituiu o PRONAC; a Lei do Audiovisual (Lei nº 8.685/1993), principal sustentáculo financeiro do cinema independente desde a Retomada; a MP nº 2.228-1/2001, que criou a ANCINE; a Lei nº 11.437/2006, que regulamentou o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA); e a Lei nº 12.485/2011 (Lei da TV Paga), que ampliou a presença de obras brasileiras nos canais por assinatura.
No plano institucional, são igualmente relevantes: a Riocine, pioneira como distribuidora nacional nos anos 1990; a ANCINE, agência reguladora e de fomento criada em 2002; o OCA — Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, que publica anuários e dados do mercado; o FSA, gerido pela ANCINE em parceria com o BNDES; a SPCine, agência municipal paulistana criada em 2012; e a Cinemateca Brasileira, guardiã do patrimônio cinematográfico nacional.
Sequência de descentralizações
Três tipos de descentralização parecem ter sido especialmente produtivos para a escalada internacional do cinema brasileiro recente: as descentralizações geográfica, temática e estilística.
A descentralização do eixo Rio-São Paulo foi decisiva. Hoje, cidades como Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília são polos de produção e sedes de festivais relevantes. O Agente Secreto, filmado inteiramente no Recife, é o exemplo mais eloquente desse fenômeno — e o primeiro filme brasileiro produzido fora do eixo Sul-Sudeste a atingir 1 milhão de ingressos em apenas seis semanas de cartaz.
Outra descentralização – a temática – também favoreceu o surgimento de uma pletora de histórias voltadas a diferentes públicos, com maior produção de filmes de gênero e seus híbridos. O documentário igualmente se renovou, com obras que focaram tanto em histórias intimistas — 33 (2003), de Kiko Goifmann — quanto em microcosmos institucionais — Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho, ou Um Lugar ao Sol (2009), de Gabriel Mascaro. No campo da animação, Uma História de Amor e Fúria (2013), de Luiz Bolognesi, e O Menino e o Mundo (2014), de Alê Abreu, venceram consecutivamente o Cristal no Festival de Annecy, o mais importante prêmio do gênero no mundo.
Já a descentralização estilística veio a reboque: se o Cinema da Retomada em geral privilegiou a comunicação com o público em detrimento de experimentos mais ousados, coletivos como o Alumbramento e cineastas como Adirley Queirós e Affonso Uchôa apostaram num cinema inconformado com a lógica industrial.
Em termos de bilheteria, o cinema brasileiro atingiu seus melhores números em anos de grande apelo popular — Dois Filhos de Francisco (2005), com 5,6 milhões de espectadores; Tropa de Elite 2 (2010), com mais de 11 milhões. Atualmente, Ainda Estou Aqui ultrapassou 5 milhões de espectadores no Brasil, enquanto O Agente Secreto chegou a 1 milhão em poucas semanas. Durante o governo Bolsonaro (2018-2022), a cultura como um todo e o cinema em particular sofreram duros golpes — cortes orçamentários, propaganda adversa —, mas novamente a classe cinematográfica se adaptou e as agências mantiveram seu papel.
O que a trajetória do cinema brasileiro — de Carlota Joaquina a O Agente Secreto — revela é que resistência cultural e política industrial podem caminhar juntas. Ao longo de três décadas, o cinema brasileiro construiu uma identidade reconhecível internacionalmente sem abrir mão de suas peculiaridades regionais, temáticas e estilísticas. As estatuetas e os galardões recentes são, nesse sentido, menos o destino de uma corrida e mais o reflexo de uma longa e tenaz escalada — feita de leis, editais, festivais, coletivos, dezenas de diretores e incontáveis histórias que insistiram em existir
Alfredo Suppia, Professor Associado do Depto. de Multimeios, Mídia e Comunicação, Inst. de Artes, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Fonte: The Conversation, republicado sob uma licença Creative Commons.
