Patriarcado não tem vez em “Herland: a terra das mulheres”

Charlotte_Perkins. Reprodução
“Terra das Mulheres” é um livro que não deve nada aos seus equivalentes do mesmo período, uma aventura muito gostosa de se ler, um espelho muito perturbador que nos faz enxergar os vários problemas do patriarcado ocidental
Por Derley Menezes Alves*
“Quando o feminismo for legalizado, cenas como essa serão comuns”. Quem nunca leu essa frase seguida de algum meme engraçadinho pró ou contra o feminismo está usando a internet de maneira errada. Ou certa, provavelmente. O fato é que, “Herland: a terra das mulheres”, escrito por Charlotte Perkins Gilman, publicado pela Via Leitura em tradução de Lígia Azevedo, fornece uma resposta séria sobre um mundo sem patriarcado, onde o feminismo foi legalizado.
O livro é uma daquelas aventuras bem ao gosto do final do século XIX, começo do XX sobre contato com uma civilização desconhecida, até então oculta para o mundo e que apresenta um modelo civilizacional tão bom quanto ou mesmo superior aos modelos do ocidente colonialista.
Reforço o colonialismo pois a autora, feminista, escreveu este livro em 1915, uma época em que a superioridade ocidental não era questionada, mesmo quando a obra era questionadora. Muito menos questionado era o patriarcado, afinal, a grande maioria de quem escrevia era de homens. Era comum o representante do ocidente surgir como um sopro inovador, que fazia aquele povo rever seu modo de vida. Raramente o ocidente precisava rever a si mesmo.
O livro nos apresenta três personagens, três homens jovens e aventureiros, personagens que representam muito bem versões do aventureiro ocidental. Dentro do espírito da obra, diria que cada um deles representa uma face do patriarcado.
Terry é o patriarcado mais descarado. Machista e arrogante ao extremo, ele entende que o mundo e tudo e todas que há nele são seus para brincar e explorar, queiram as envolvidas ou não queiram. É o explorador que chega, leva todas as riquezas mediante o uso da violência e volta para as metrópoles rico e cheio de histórias para contar desse mundo selvagem que ele conheceu.
Jeff representa a face mais calma e bondosa do patriarcado, e não é de se estranhar, por conta disso, que sua participação na narrativa seja menor do que a dos outros dois. Ele está mais aberto ao novo e ao diferente do que seus amigos e se integra quase que sem grandes dificuldades.
Por fim temos o narrador da aventura, Vandyck, sociólogo que representa, aquela que talvez seja a face mais terrível do patriarcado e do colonialismo, aquela que, sob o manto do conhecimento científico, pratica ora o epistemicídio de povos, ora auxilia em sua destruição graças ao conhecimento acumulado. S
e o cenário deste livro fosse a Índia, ele seria um orientalista conhecedor dos idiomas e das religiões locais, a serviço dos exploradores ingleses. Ao longo do livro ele se mostra em tons neutros de cientista, aos poucos vai revelando como a ciência da época era preconceituosa ao estudar povos não ocidentais. Talvez o principal traço desse preconceito seja tratar estes povos apenas como objetos de estudo, coisas passivas, que poderiam ser entendidas e categorizadas pelo ocidente.
A trama gira em torno desses aventureiros terem ouvido falar de uma terra sem homens, governada completamente por mulheres. Os nativos dos quais veio a informação falavam sobre a possível localização e dos riscos de se visitar esse lugar. Naturalmente nossos jovens guerreiros se enchem de desejo pelos louros de serem os primeiros a descobrir tal lugar e organizam uma expedição. O que eles imaginam? Eles projeta nessa terra das mulheres todos os modelos e estereótipos sobre o feminino que eram aceitos na época. Seres frágeis que necessitavam da presença masculina. Era uma missão de salvamento.
Eles só esqueceram de combinar com estas mulheres. Nada no lugar combina com suas expectativas. Eles encontram mulheres fortes, fisicamente ágeis e capazes de criar um mundo muito melhor do que o ocidente era, especialmente em relação às mulheres ocidentais. O desconforto de Terry é o pior de todos, ele não entende como estas mulheres não estão idolatrando estes três homens como se fossem a salvação delas, ele imaginava um harém pronto, esperando apenas seu senhor. O que recebe são mulheres capazes de subjugá-los, transformá-los em hóspedes-prisioneiros para que eles aprendam o idioma e a história do lugar em troca de ensinarem sobre o mundo externo para elas.
Eles nunca desistem da ideia segundo a qual existem homens porém eles são mantidos em algum tipo de cativeiro, do contrário, o que explicaria a existência de crianças e de renovação populacional, sem a reprodução sexuada? Bom, a autora oferece uma explicação para isso bastante curiosa e científica, dado o conhecimento de evolução da época.
O mais fascinante desse mundo, para mim, está no valor da maternidade e da educação. A autora parece se inspirar numa ampla gama de autores, dos quais me parece justo destacar Platão e Rousseau. As crianças são educadas numa mescla de necessidades da comunidade e para que se desenvolvam bem como seres humanos. Exercícios físicos e aprendizados específicos fazem parte da educação de todas, além das especificações que possam interessar a cada uma, sempre pensando nos problemas e no bem estar da comunidade.
É como se ela desse uma resposta ao Emílio de Rousseau, livro sobre a educação dos meninos. Lembremos que Rousseau atribuía diferenças naturais entre homens e mulheres, de modo que os homens seriam feitos para o conhecimento e as mulheres para a vida prática e a maternidade. Aqui vemos mulheres educadas de um modo bastante similar ao Emílio desenvolvendo capacidades que Rousseau achava serem típicas dos homens.
Nossos aventureiros acabam se tornando parte de um projeto para mudar o modo de reprodução humana nessa sociedade e os problemas começam a aparecer. Eles seguem agindo como homens do século XIX diante de mulheres sem nenhuma referência cultural parecida. Elas seguem sendo indivíduos fortes e independentes que querem esta nova vida em seus próprios termos. As tensões só crescem, especialmente com Terry, que acredita ser a esposa um posse para seu usufruto indiscriminado.
A ideia era que as esposas dos jovens fossem em missão junto com os maridos para conhecer o mundo, especialmente o que as encantava era a possibilidade de conhecimentos novos em termos de ciência e tecnologia. A compreensão delas sobre os aspectos sociais do mundo foi sendo construída com base nas informações dadas e sonegadas pelos rapazes. Eles sempre se esforçavam para descrever o ocidente de um modo que não ficasse para trás em termos de como as mulheres eram tratadas. O que eles não sabiam é que as nativas da terra das mulheres souberam interpretar e preencher partes das lacunas o suficicente para entender que o mundo externo não era tão agradável assim para as mulheres. Além, é claro das doenças e da violência.
Elas queriam que pelo menos uma representante viesse para nosso mundo e a depender do que ela relatasse, relações seriam iniciadas. Naturalmente, o patriarcado violento que Terry representa não quer respeitar o desejo de uma população nativa, quer logo trazer uma missão mais agressiva de exploração.
“Terra Das Mulheres” é um livro que não deve nada aos seus equivalentes do mesmo período, uma aventura muito gostosa de se ler, um espelho muito perturbador que nos faz enxergar os vários problemas do patriarcado ocidental. Infelizmente, hoje em dia, há um esforço coordenado para renovar o pensamento machista criticado nesta obra, de modo que ela não está tão desatualizada assim. Pelo menos em seus traços mais gerais. Sem dúvida uma leitura fundamental. Nunca é demais dizer: precisamos ler mulheres. Todos e todas. Mas nós, homens, precisamos um pouco mais.
Originalmente publicado no blog Resenhas Scifi
* Derley Menezes Alves é mestre em filosofia, doutor em ciências das religiões, autor do livro “Nietzsche e o Budismo: entre a imanência e a transcendência”. Criador do perfil @resenhascifi no Instagram.
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